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A nova média
Quando o diferencial vira básico
O futuro já chegou. Ele só não está distribuído igualmente.
Durante muito tempo, algumas empresas tinham vantagem simplesmente porque conseguiam acessar canais que outras não conseguiam.
Anunciar na televisão, no rádio, em jornal, revista ou outdoor exigia dinheiro, estrutura e relacionamento. Não era qualquer empresa que conseguia sentar nessa mesa.
Aí veio a mídia digital.
De repente, uma empresa pequena conseguia anunciar com R$ 50 reais por dia, testar criativos, segmentar públicos, medir resultados, pausar o que não funcionava e escalar o que performava melhor.
Isso mudou completamente a média do mercado.
Antes, uma empresa que sabia fazer o mínimo de publicidade talvez já estivesse acima da média.
Depois do digital, esse mínimo deixou de ser suficiente.
Ter uma página, subir uma campanha, acompanhar o CPL e fazer remarketing já foi uma vantagem. Hoje, em muitos mercados, é só o básico para continuar no jogo.
E acho que estamos prestes a viver esse mesmo movimento de novo.
Só que agora a nova mídia digital se chama IA.
No começo, quem aprendeu a usar IA bem ganhou uma vantagem absurda. Produziu mais rápido, criou mais variações, melhorou páginas, escreveu anúncios melhores, automatizou tarefas e analisou informações com muito menos esforço.
Mas essa vantagem tem prazo de validade.
Porque, quando todo mundo começa a usar a mesma tecnologia, o que antes parecia diferencial agora vira a nova média.
Se todo mundo usa um agente para criar páginas melhores, páginas melhores deixam de impressionar.
Se todo mundo usa IA para escrever anúncios melhores, anúncios melhores deixam de ser vantagem.
Se todo mundo consegue produzir mais rápido, velocidade deixa de ser diferencial e vira expectativa.
Essa é a provocação do percurso de hoje:
Não basta melhorar em relação ao que você era antes. Você precisa entender se está melhorando mais rápido do que a média do mercado.
Porque o cliente não compara a sua empresa com a sua versão antiga.
Ele compara você com todas as alternativas que aparecem na frente dele agora.
E aqui existe uma diferença que muita gente ainda está ignorando.
A tecnologia pode ser a mesma, mas o resultado raramente será.
Duas empresas podem usar o mesmo Claude, o mesmo agente, a mesma ferramenta de automação, o mesmo construtor de página e o mesmo CRM. Ainda assim, uma pode criar uma operação muito mais inteligente, enquanto a outra apenas produz mais coisa mediana em menos tempo.
Sempre foi assim, independente da revolução de tecnologia que você escolher.
A diferença não está na ferramenta.
Está no pensamento de quem usa.
A IA não elimina a necessidade de estratégia. Ela aumenta a importância dela.
Porque, quanto mais fácil fica executar, mais perigoso fica executar sem pensar.
Antes, a limitação operacional segurava muita ideia ruim. A pessoa até queria fazer dez páginas, vinte anúncios, cinquenta e-mails, mas não tinha tempo, equipe ou dinheiro para isso.
Agora, ela consegue.
E isso é ótimo quando existe clareza.
Mas é péssimo quando existe confusão.
Porque a IA pode transformar uma boa hipótese em 100 bons testes.
Mas também pode transformar uma ideia ruim em 100 variações ruins, todas muito bem escritas, bonitas e aparentemente profissionais.
Melhorar a execução não substitui a qualidade do raciocínio.
Ela pode escrever uma página, mas não necessariamente sabe para quem ela se destina.
Pode criar um anúncio, mas não sabe, sozinha, qual dor realmente move o cliente.
Pode resumir uma planilha, mas não entende automaticamente qual decisão aquele número deveria orientar.
Pode sugerir uma estratégia, mas não carrega o contexto completo da empresa, do mercado, do caixa, do time, do produto, do momento e das restrições envolvidas.
Esse contexto ainda precisa vir de alguém.
E esse alguém precisa pensar bem.
Por isso, talvez a grande divisão dos próximos anos não seja entre empresas que usam IA e empresas que não usam.
Essa divisão vai ficar velha rápido.
A divisão real será entre empresas que usam IA para pensar melhor e empresas que usam IA apenas para produzir mais.
As primeiras vão ganhar velocidade com direção.
As segundas vão ganhar volume com barulho.
E barulho, em um mercado onde todo mundo está produzindo mais, vale cada vez menos.
Se todo mundo consegue gerar um relatório em minutos, o relatório em minutos deixa de ser o diferencial.
O diferencial passa a ser saber o que pedir, por que pedir, como avaliar a resposta e qual decisão tomar depois.
No fim, a tecnologia aumenta a média.
Mas quem fica acima da média continua sendo quem pensa melhor.
Quem entende melhor o cliente.
Quem interpreta melhor os dados.
Quem faz perguntas melhores.
A IA será uma vantagem enorme.
Mas só para quem entende que ela é alavanca, não volante.
Ela aumenta a força do movimento.
Mas a direção ainda é responsabilidade sua.
Seu momento de refletir
- Você está medindo sua evolução contra o seu passado ou contra a nova média do mercado?
- O que hoje parece diferencial na sua empresa, mas pode virar básico nos próximos meses?
- Quais dados, contextos ou conhecimentos você tem que a IA dos seus concorrentes não tem?
- Você está usando IA para pensar melhor ou só para produzir mais?
- Se todo mundo tivesse acesso às mesmas ferramentas que você usa hoje, o que ainda faria sua empresa ser escolhida?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Dados no Cotidiano
A ferramenta mudou. O pensamento e o resultado, nem sempre.
Um estudo recente da Glean mostrou números bem interessantes sobre o uso de IA no trabalho.
87% dos trabalhadores digitais entrevistados disseram usar IA no trabalho.
Ótimo, em termos de adoção, estamos muito próximos da totalidade
75% disseram que a IA os torna mais produtivos.
E a maioria colhe resultados para si com isso.
Mas só 13% disseram que a organização onde trabalham está performando significativamente melhor por causa disso.
Ou seja: muita gente sente que está ganhando produtividade individual, mas esse ganho não necessariamente vira melhoria real para a empresa.
E isso não faz nenhum sentido lógico, a não ser que as pessoas estejam usando a IA para acelerar coisas que não mexem o ponteiro, justamente a reflexão que eu trouxe no texto.
Vá uma milha a mais
Para seguir no tema de hoje, minha recomendação é o TED “AI’s productivity paradox — and what it means for you”, do Ethan Mollick.
É um conteúdo bem acessível e muito bom para entender uma armadilha importante desse momento: usar IA pode deixar uma pessoa mais produtiva, mas isso não significa automaticamente que uma empresa ficou mais inteligente, mais estratégica ou mais competitiva.
Essa diferença é essencial.
O ponto mais interessante da fala é justamente esse paradoxo: a tecnologia melhora a execução, mas a vantagem real continua dependendo de como as pessoas pensam, decidem, interpretam e organizam o trabalho ao redor dela.