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A responsabilidade é sua
aceite-a ou dê adeus a sua empresa
Não existem equipes ruins, apenas líderes ruins.
Dado que estamos em Copa do Mundo (e aparentemente boa parte do país só quer saber disso...), imagine que você é técnico de um time há 4 temporadas.
Já ganhou alguns títulos menores, mas nenhum de grande expressão.
Agora, você tem um jogo que vale a classificação para a próxima fase de uma competição importante.
Sua comissão técnica orienta que, para aquele jogo, manter a estratégia de sempre vai dar errado. O adversário está jogando diferente, já sabe conter o seu modelo e, nos últimos confrontos contra times parecidos, a formação que você quer escalar tem sido frequentemente derrotada.
Você diz que entendeu.
Mas segue com o plano da sua cabeça.
O time que vai a campo é o time das temporadas anteriores. O time das vitórias passadas. O time que, na sua memória, ainda funciona.
A comissão insiste.
Avisa que alguns jogadores não têm mais o mesmo desempenho. Mostra que existem fraquezas claras para aquele adversário. Aponta que alguns nomes têm grandes chances de comprometer o restante do time.
Você insiste na decisão
Alguns dias antes do jogo, a liderança do grupo de jogadores chama você para uma conversa.
Eles pedem para reconsiderar.
Dizem que as últimas análises da comissão haviam se provado corretas e que o grupo se sentia mais seguro seguindo o caminho proposto por ela.
Você não dá ouvidos.
A justificativa é simples: precisa ser daquela forma.
Foi aquilo que funcionou no passado.
O time entra em campo.
Primeiro tempo com alguns bons ataques, algumas chances criadas, mas 0x0 no placar.
No intervalo, a comissão técnica traz uma avaliação clara: o time está vulnerável.
Apesar das chances ofensivas, há buracos na defesa, erros de posicionamento no meio-campo e laterais subindo sem voltar para marcar.
Você não dá ouvidos.
Diz que o time criou muitas chances e que é só uma questão de tempo até o gol sair.
Segundo tempo rolando.
25 minutos.
Nada.
De repente, o adversário faz um.
Depois outro.
Depois um terceiro gol.
O primeiro, falha do lateral.
O segundo, erro do meio-campo.
O terceiro, uma entregada da defesa.
3x0.
Jogo encerrado.
Desclassificação contundente.
Coletiva de imprensa.
Hora de assumir a responsabilidade?
Nada disso.
Primeiro, você ataca a comissão técnica, dizendo que eles deveriam ter feito algo
Depois, ataca os jogadores. Diz que é inadmissível cometer aquele tipo de falha nessa altura do campeonato.
Termina a coletiva dizendo que quem deveria estar ali assumindo a responsabilidade pela derrota era a comissão técnica e os jogadores que falharam.
No dia seguinte, você troca a comissão e afasta os jogadores.
Problema resolvido.
Só que não.
Esse texto não fala sobre futebol.
Troque estratégia de jogo por estratégia de venda.
Troque “comissão técnica” pelos consultores e conselheiros da empresa.
Troque a liderança do time pelos seus líderes de área.
Você tem um paralelo quase perfeito de um cenário que, infelizmente, acontece com mais frequência do que deveria dentro das empresas.
Donos e líderes que ignoram os sinais, desconsideram os dados, passam por cima do time, mantêm uma decisão ruim por apego ao passado e, quando o resultado vem, culpam a execução.
A execução que todos, menos ele, sabiam que tinha grandes chances de dar errado.
O problema é que, diferente dos esportes, em que normalmente cai o treinador, nas empresas muitas vezes se troca o time, os parceiros, as consultorias, os fornecedores.
Nesse tipo de empresa, o problema nunca está no topo.
Já presenciei versões desse filme mais vezes do que gostaria.
E, toda vez que vejo isso acontecer, lembro de uma conversa que tive com um amigo empresário.
Eu estava narrando uma situação incômoda na empresa, na qual um time não estava entregando como precisava.
Ele me respondeu de forma seca:
“Cara, é só tu resolver.”
Eu, sem entender, respondi:
“Mas o problema não sou eu.”
De forma ainda mais seca, ele rebateu:
“Se o problema não for tu, ele com certeza é teu.”
Depois continuou:
“Se contratou errado, demite e troca. Se eles não sabem o que fazer, treina. Se eles querem ir por outro caminho, para de dar as tarefas mastigadas e muda a forma de cobrança para entrega de resultado.”
“O time é teu, a empresa é tua, o problema é teu. Aceita, resolve e para de mimimi.”
Apesar de essa conversa ter evidenciado algumas dezenas de erros grotescos que eu cometi pelo caminho, esse conselho/tapa na cara é facilmente um dos melhores que já recebi na vida profissional.
Ele mudou completamente a forma como eu passei a enxergar minhas decisões e avaliar meus resultados.
E, principalmente, deixou claro uma coisa:
Se algo de errado está acontecendo na minha empresa ou no meu time, a responsabilidade é minha.
Não necessariamente a culpa.
Mas a responsabilidade, sim.
Anos depois, estudando sobre comportamento humano, conectei esse conceito a outro:
Nós tendemos a não agir sobre situações pelas quais entendemos não sermos responsáveis.
Então buscamos culpados.
“Cheguei atrasado porque tinha trânsito.”
Na verdade, você saiu com o horário apertado.
“Não deu para entregar a meta porque os custos encareceram.”
Na verdade, você não se preparou para esse cenário e não corrigiu a rota a tempo.
“O time não executou.”
Na verdade, talvez você tenha definido mal o caminho, ignorado os alertas, cobrado a coisa errada ou criado um ambiente onde as pessoas não se sentiam seguras para discordar de você.
Nosso raciocínio, não tão lógico quanto gostaríamos, é simples:
Se foi o outro que errou, a responsabilidade é dele.
Logo, eu não preciso fazer nada.
Sinto informar: se você realmente quer resolver as coisas e ir para frente, isso não funciona.
Liderar é aceitar que, mesmo quando o problema não nasce em você, ele chega até você.
Se o time não entendeu, a responsabilidade é sua.
Se o time não estava preparado, a responsabilidade é sua.
Se a estratégia ignorou os dados, a responsabilidade é sua.
Se as pessoas certas avisaram e você escolheu não ouvir, a responsabilidade é ainda mais sua.
Isso não quer dizer passar pano para erro de execução.
Também não quer dizer que todo mundo no time está sempre certo ou que dados são infalíveis.
Mas quer dizer que, antes de jogar a responsabilidade para baixo, um líder precisa ter coragem de olhar para cima. Para si mesmo.
A parte mais difícil da liderança não é tomar decisões.
É conviver com as consequências delas sem terceirizar a culpa quando o resultado vem pior do que o esperado.
Assuma a responsabilidade pelos seus erros e pelas suas decisões.
Conserte o que precisa ser consertado.
Reconheça perante o time quando a rota escolhida não foi boa.
E, sim, erre novamente.
Porque isso vai acontecer.
Mas existe uma diferença gigante entre o líder que erra, aprende e corrige, e o líder que erra, culpa e troca as peças do tabuleiro como se o problema nunca tivesse sido o movimento dele.
O primeiro constrói confiança.
O segundo constrói silêncio.
E o silêncio, dentro de uma empresa, é perigoso.
Porque quando o time aprende que avisar não adianta, ele para de avisar.
Quando aprende que discordar vira punição, ele para de discordar.
Quando aprende que os dados só são aceitos quando confirmam a opinião do topo, ele para de trazer dados incômodos.
A empresa continua funcionando.
As reuniões continuam acontecendo.
Os relatórios continuam sendo enviados.
Mas a inteligência coletiva morre.
E quando a inteligência coletiva morre, o líder passa a decidir cada vez mais sozinho.
Normalmente, com cada vez menos contexto.
E com cada vez mais convicção.
Essa é uma combinação perigosíssima.
Aconteça o que acontecer, nunca jogue o seu time e sua comissão técnica no trilho do trem.
Além de deselegante, isso é uma burrice estratégica.
Afinal, se foi você que escolheu o time, ignorou os sinais e manteve o plano, sua responsabilidade não desaparece no apito final.
Ela só fica mais evidente.
Seu momento de refletir
Quais responsabilidades você está transferindo para pessoas que não são as verdadeiras responsáveis?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
Dados no Cotidiano
Segundo a Gallup, 70% da variação do engajamento de um time está relacionada à gestão.
No momento em que você joga o seu time debaixo do trem, mesmo ele tendo avisado que iria dar problema, você está no caminho mais rápido para perder o jogo.
Porque um time que aprende que será culpado quando avisa sobreo problema, começa a fazer algo muito perigoso: parar de avisar.
E quando isso acontece, você não perde só o jogo, mas o campeonato inteiro.
Vá uma milha a mais
Se você quer entender um pouco do outro caminho (deixar o seu time seguro e assumir a responsabilidade quando necessário), recomendo esse episódio do TED de Simon Sinek.