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Você não é o seu cliente
mas fala com ele como se ele fosse você.
Depois que sabemos algo, fica muito difícil imaginar como é não saber mais aquilo
Esta semana, recebi a visita de alguns amigos aqui em casa.
Um deles era intolerante à lactose.
Fomos almoçar em um restaurante italiano e meu amigo queria muito pedir a massa à carbonara, mas estava com receio que tivesse muito queijo na preparação (afinal são poucos restaurantes que seguem a receita original...)
Ele chamou o garçom e perguntou: “Vai muito queijo no preparo?”.
O garçom respondeu: “Ahhh vai a quantidade normal”.
Tá certo que o garçom parecia de má vontade, mas enfim...
Quando o prato dele chegou, a risada na mesa foi geral (com exceção dele).
A massa veio servida em uma cesta de puro queijo.
Sem brincadeira, só a cesta que envolvia a massa tinha fácil mais de 200 gramas de queijo.
Debatemos rapidamente como aquilo tinha acontecido.
Não tem como alguém achar que uma carbonara que tem mais de 50% de queijo na montagem tenha a “quantidade normal” de queijo.
A não ser que ele tenha respondido pensando na carbonara do restaurante em que estávamos.
Afinal de contas, é a que ele conhece, então sim, a quantidade de queijo não poderia ser nada diferente do normal, afinal, eles sempre servem assim.
Você pode estar achando a história engraçada ou até absurda se você é um apreciador de carbonara assim como eu.
Mas saiba de uma coisa, isso é muito mais comum do que percebemos.
E, provavelmente, se você trabalha com marketing ou se sua empresa faz marketing, é bem possível que você esteja fazendo a mesma coisa.
Te apresento a assimetria de conhecimento.
A maior vilã de comunicação que eu conheço.
E foi isso que me trouxe a ideia do percurso de hoje: a maior parte dos problemas de comunicação nasce quando a gente fala com a cabeça de quem já conhece o caminho.
Conhecemos tanto o nosso próprio produto, falamos sobre ele todos os dias há tanto tempo, que começamos a acreditar que o mercado enxerga tudo com a mesma nitidez.
Não enxerga.
Nós já sabemos o problema que resolvemos, sabemos bem nossos diferenciais (ou deveríamos saber), já sabemos quais partes técnicas importam e como usar o nosso produto.
O público final não.
Mas nós criamos anúncios e campanhas de marketing como se eles soubessem.
Certamente você já passou por um outdoor em que se perguntou “como a empresa espera que eu entenda isso?”
Tenho certeza também de que, na cabeça de quem pensou, ele estava genial.
A pessoa só não se deu conta de que as demais pessoas precisariam ter o conhecimento dela para entender.
O efeito prático da assimetria é como você colocar alguém que assistiu a um filme 3 vezes para debater o roteiro com quem apenas assistiu ao trailer.
Não tem como dar certo.
E isso acontece na sua comunicação com sua equipe e na sua vida pessoal também.
Mas o efeito da assimetria no marketing é cruel.
A empresa quer vender um software e diz: “Centralize sua operação com inteligência preditiva e automação multicanal.”
Quem escreveu isso provavelmente achou excelente.
Mas o cliente talvez só quisesse ouvir: “Pare de perder vendas por falta de follow-up.”
Percebe a diferença?
A primeira frase fala a partir da solução. A segunda fala a partir da dor.
A primeira exige repertório. A segunda entrega clareza.
E clareza vende.
Não quero ficar só na teoria aqui com você, vamos avaliar o efeito prático.
Temos um cliente que vende software, uma plataforma focada em estudantes.
Analisamos os criativos deles e nosso diagnóstico foi que existia uma assimetria gigante entre o que eles estavam falando e o que o consumidor entendia.
A taxa de cliques dos melhores anúncios era de 0,5% e a conversão para venda era de 1%.
Ou seja, para gerar uma venda, eu precisava atingir 20.000 pessoas. Isso custava para eles cerca de R$ 200 reais.
Regravamos o criativo mantendo as funcionalidades apresentadas, mas de uma forma muito mais visual e deixando claro a dor que resolvia, não a parte técnica (e chata) da plataforma.
As novas taxas agora são 0,7% para cliques e impressionantes 5,3% para venda.
Agora, eu preciso de apenas 2.700 pessoas para gerar uma venda. Isso me custa R$ 54 reais.
A redução da assimetria gerou uma economia de 75%, ou se você preferir, um aumento de vendas de mais de 6 vezes.
E isso foi possível porque toda a base do anúncio foi pensada para reduzir assimetria.
Isso vale para marketing, mas vale igual para relacionamento.
Quantas discussões começam porque uma pessoa acha que “estava óbvio” o que ela quis dizer?
Quantas frustrações surgem porque alguém supôs que o outro “deveria ter entendido”?
Quantas vezes a gente entrega uma fala pela metade, uma expectativa implícita, uma instrução incompleta… e depois culpa o outro por não ter captado?
Isso também é assimetria.
A gente superestima o quanto o outro consegue ver o que está dentro da nossa cabeça.
No marketing, isso custa clique, atenção e venda.
Na vida, custa confiança.
Talvez por isso os melhores comunicadores não sejam necessariamente os que sabem mais.
E sim os que conseguem descer um degrau de forma natural.
Aliás, uma boa comunicação quase sempre faz três coisas muito bem:
Primeiro, ela nomeia o problema do jeito que a pessoa vive.
Depois, mostra a solução do jeito que a pessoa enxerga.
E por fim, reduz o esforço necessário para entender por que aquilo importa.
Se sua comunicação não está funcionando, talvez a pergunta não seja “como deixo isso mais criativo?”.
Talvez seja:
Que parte da minha mensagem só faz sentido para quem já está aqui dentro?
Essa pergunta muda bastante coisa.
Porque o erro de muitas marcas não está em falar pouco. Está em presumir demais.
Ou vocês já esqueceram do “Vai Brasa” da Nike?
O mercado é cruel com comunicação presumida.
Você realmente acha que alguém vai fazer algum esforço para decifrar o que você quis dizer?
Ela só vai passar reto e clicar no próximo anúncio de quem se comunica bem.
A grande tarefa de quem trabalha com comunicação é lutar contra a própria familiaridade.
Porque, no fim, comunicar bem não é provar que você domina o assunto.
É fazer com que o outro saia da conversa (ou do anúncio) com mais conhecimento do seu produto do que entrou.
Seu momento de refletir
A comunicação da sua empresa hoje é clara para os seus clientes? Ou eles precisariam estar aí dentro para entender o que você quer dizer?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Dados no Cotidiano
A Salsify, uma empresa referência em gestão de experiência de produtos fez uma pesquisa detalhada para mostrar para os seus clientes o quanto aproximar o conhecimento do cliente com o da empresa impacta em vendas.
No estudo, eles entrevistaram consumidores dos seus clientes que desistiram de uma compra em andamento.
O compilado dos motivos reforça muito que quanto maior a assimetria de conhecimento, menor a sua capacidade de vender:
- 45% dos consumidores abandonaram uma compra online por falta de imagens ou vídeos de qualidade, o que os impediam de conhecer realmente o produto
- 42% abandonaram por títulos ou descrições incompletas/mal escritas
E para mim o mais relevante:
- 41% dos consumidores informaram que pela descrição da empresa estar incompleta, buscaram por informações em outros sites ou redes sociais e encontraram inconsistências entre as informações, o que gerou desconfiança e impediu a compra.
Vá uma milha a mais
Se você gostou do tema, minha sugestão de milha extra é a introdução do livro “Made to Stick” (se você gostar, compre o livro depois) que vai aprofundar os conceitos de assimetria de comunicação e te trazer uma visão sobre a tal “maldição do conhecimento”. Você pode acessá-la aqui.