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Branco, Tinto ou Rosé?

As pessoas correm porque não sabem aonde querem ir, as pessoas que sabem vão devagar, aproveitando cada parte do caminho até o destino
Essa frase, cuja autoria é desconhecida, estava na parede de um pequeno café de Roma onde paramos para comer um doce típico relacionado ao casamento chamado “Maritozzo” e tomar um verdadeiro Cappuccino italiano.
Algumas belezas que viajar nos propicia.
Esse tema maturou na minha cabeça durante duas corridas (sim, sigo correndo mesmo de férias) e vai guiar nosso percurso de hoje: escolhas ou tomada de decisão, como você preferir.
Cientistas estimam que tomamos até 35 mil decisões todos os dias, a grande parte delas inconsciente, nem nos damos conta que estamos fazendo A ou B.
São as decisões conscientes, porém, que tem um grande impacto na nossa trajetória. Ainda mais quando analisamos uma cadeia ou sequência de decisões.
Vamos a um exemplo rápido:
Escrevo essa Newsletter na Toscana. Para ela chegar até você, foram dezenas de decisões em sequência: começar a escrever newsletters, me casar, passar parte da lua de mel na Toscana, entrar naquele café de Roma e por aí vai.
Ao chegarmos no hotel, fomos conhecer um pouco a pequena propriedade e nos deparamos com uma biblioteca de livros antigos. Eis que encontro a pérola da foto abaixo, as grandes histórias de negócio de todos os tempos, escrito em 1997 por uma série de editores da Forbes, sendo o principal, Daniel Gross.
Resolvi ler uma história antes de correr, folheando o livro tive a curiosidade de ver como a história de Walt Disney seria contada.
E me deparei com um conteúdo riquíssimo justamente sobre o tema decisão (talvez um pouco de viés aqui, mas quem se importa).
Walt Disney era o quarto filho de 5. Teve uma infância muito difícil com a família se mudando frequentemente e com os filhos desde jovem sendo usados como força de trabalho pesado.
Em uma das mudanças, os dois irmãos mais velhos de Walt fugiram, abandonando a família.
Mais uma mudança, mais um trabalho pesado a fazer, com constantes agressões físicas do seu pai. O terceiro irmão seguiu o rumo dos dois primeiros e abandonou a família.
Walt poderia ter tomado muitas decisões diferentes, ter feito escolhas que talvez mudassem o rumo do entretenimento como conhecemos hoje, mas não.
Para combater a solidão e fugir um pouco da realidade complexa que vivia, Walt começou a criar personagens e mundos imaginários. Começou a desenhá-los e criar histórias.
E ficou tão bom nisso a ponto de construir o império que conhecemos hoje.
Depois disso, tomou uma série de decisões que eram nada óbvias para a época. Fiquei me perguntando qual o alicerce que sustentava essas escolhas. O livro me apresentou os dois principais: seus valores e seus sonhos.
Como você pode imaginar, muita coisa deu errado para ele antes de finalmente “dar certo”. Ele teve muitos momentos, nos quais poderia ir pelo caminho “errado”, mas, independente do tipo de decisão que tomava, ele sempre se mantinha fiel aos seus valores e sonhos.
Busquei no livro algumas principais que não são tão conhecidas e, com certeza, não são nada óbvias para a época em que foram tomadas:
- O primeiro personagem de sucesso de Disney não foi o Mickey e sim Oswald the Lucky Rabbit. Walt, porém, perdeu os direitos do personagem por um contrato assinado de forma ingênua. Ele poderia ter desistido, poderia ter se revoltado, mas a decisão dele foi estudar muito sobre a parte jurídica das produções hollywoodianas para que isso nunca acontecesse novamente. Além disso, jurou nunca mais trabalhar para alguém. A partir daquele momento, ele trabalharia apenas para ele mesmo.
- Quando todo o cinema de animações era sem voz (apenas música), ele resolveu juntar som e voz, elevando em muitas vezes o custo da produção do filme e criando os desenhos como conhecemos hoje.
- Enquanto as empresas de produção da época focavam no seu país específico (afinal estamos falando da década de 30), ele resolveu levar os desenhos da Disney para o mundo inteiro, a ponto de o Mickey ser, na década de 40, a segunda figura mais famosa do Japão perdendo apenas para o próprio imperador do país.
- Quando todos produziam animações curtas, ele resolveu investir 1 milhão de dólares (na década de 30) para produzir uma sequência com mais de 200 mil frames e mais de uma hora que depois viria a ser o sucesso que conhecemos como Branca de Neve.
A base que norteou todas elas foi a de revolucionar o entretenimento. Criar algo para que as crianças, como ele, pudessem se sentir menos solitárias e para que famílias pudessem desfrutar em conjunto.
Decisões mais famosas como construir a Disneyland, licenciar produtos, verticalizar a produção dos filmes e animações foram baseadas no alicerce de valores e sonhos e na visão de revolucionar uma indústria.
Entramos então em um ciclo de 4 etapas para que isso se torne realidade (inclusive serão os temas das próximas newsletters): decisão, busca pelo conhecimento, busca pelo ambiente correto e execução.
Nos debruçando no tema decisão e buscando uma analogia com vinhos (não poderia fazer outra estando onde estou), podemos categorizar tipos de decisão como a escolha de tipos de vinho.
A escolha do vinho tinto.
Temos as decisões lógicas e racionais, que se assemelham a escolher um vinho tinto em um restaurante. É o tipo de decisão que busca minimizar a chance de erros, se basear nos comportamentos mais comuns, se basear em fatos e dados.
Racionalmente, é a escolha mais popular, porém, assim como o vinho tinto, a qualidade depende diretamente e em alto grau dos insumos e do processo utilizado.
Para um vinho tinto ser realmente bom, o processo é longo. Precisa uma combinação de fatores: solo (estrutura), temperatura (ambiente), armazenagem, manuseio (organização) e escolha do tempo para disponibilizar para consumo (análise).
Os melhores vinhos, os mais icônicos, são tintos que tiveram um grande processo de produção, estudo, tempo investido. Assim como grandes decisões.
Os piores vinhos também são tintos, insumos ruins, processo descuidado, produto final péssimo.
Saiba que quando escolher o tinto, você precisa se certificar que os insumos (dados) e os processos utilizados na produção (gestão e execução) são de primeira. Do contrário, o vinho nunca será.
A escolha do vinho Rosé.
Talvez o visualmente mais belo de todos os tipos de vinho é o nosso paralelo com as decisões emocionais. São raríssimos os momentos onde o rosé é a decisão óbvia, mas existem muitos momentos onde ele é a escolha certa.
Ocasiões especiais, principalmente onde as pessoas envolvidas importam (e muito). É aqui que devem se concentrar nossas decisões mais emocionais.
Li essa semana sobre a decisão de um técnico da NBA de começar uma partida importante com um terceiro reserva (e fora de forma) como titular.
A decisão nunca seria tomada de forma lógica, mas o entorno a torna uma decisão incrível.
O filho mais novo desse jogar tem um espectro autista muito elevado e nunca conseguia acompanhar um jogo inteiro. Como seu pai só entrava em momentos específicos do jogo, ele nunca havia visto o pai jogar.
Sabendo disso e sabendo que o filho do jogador estaria no estádio, o técnico mudou a escalação para o filho poder ver a primeira partida do pai.
O resultado foi que, pela primeira vez na vida, a criança conseguiu assistir a um jogo inteiro de basquete.
Imagino que essa história mexeu de alguma forma com um sentimento seu, essa é a base desse tipo de decisão.
Quando nossas decisões envolverem pessoas, seu futuro e o futuro das suas famílias, o componente emocional precisa fazer parte da decisão. Nem sempre ele deve guiá-la, mas exclui-lo nos tornaria meros robôs.
A escolha do vinho branco
Na minha humilde visão de vinhos, esse é o tipo mais versátil que existe. Ele vai caracterizar um tipo específico de decisão (que acredito nem existir na literatura), a decisão ousada, a decisão irreverente.
A versatilidade desse tipo de vinho combina muito com o embasamento de algumas decisões.
Temos a linha de brancos jovens, aquelas decisões que tomamos em cima de uma mistura de força e um pouco de irresponsabilidade da juventude. Muitas vezes, é o tipo de decisão que vamos perdendo quando ficamos mais velhos e “experientes”.
Precisamos usá-la para sair da inércia, para sair da “mesmice”. Assim como um branco jovem bem escolhido, esse tipo de decisão pode gerar resultados muito bons, trazer oxigênio para os negócios e para a vida profissional.
Muitas vezes, esse é o tipo de decisão que falta para o nosso negócio (ou nossa vida profissional) ter a mudança que precisa.
Também temos a linha de brancos complexos, vinhos normalmente surpreendentes pela quantidade de elementos presentes. É o tipo de decisão que quando observamos, falamos: “Genial! Como que pensaram nisso?”.
Ele junta elementos da decisão racional e embasada em dados, com o contexto de uma decisão emocional e a juventude de uma decisão irreverente.
O resultado tende a ser a criação de algo que ainda não foi visto.
Assim como escolher vinho branco, esse não vai ser o seu modelo padrão de decisão, nem deveria ser. Mas, no momento certo, não existe melhor modelo que você possa usar.
E acho que o paralelo tem boa valia, porque o que torna alguém muito bom em tomada de decisão é a mesma característica de quem sabe harmonizar vinhos com maestria: quando fazer uso de cada tipo.
E para isso, você precisa conhecer muito bem todos eles, experimentar cada tipo, ver o que funciona melhor para você, entender os impactos de cada uma para aí saber as melhores combinações para você.
Seu momento de refletir:
- Que tipo de vinho (decisão) você mais tem tomado?
- Você já descobriu quais harmonizações funcionam melhor para você?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Ahh, a decisão de hoje foi pelo Rosé, afinal, é meu casamento. Podemos deixar a lógica de lado por um instante.
Grande abraço,
Mazzillo
Dados no Cotidiano: os jovens estão bebendo menos?
Essa semana me deparei com o post abaixo no perfil do Bruno Perini, usando um gráfico de dinheiro gasto por geração para sustentar a tese que a geração Z está bebendo muito menos do que as anteriores.

Em uma primeira visão do gráfico, a afirmação parece correta, mas será que é tão relevante quando parece?
Vamos a alguns pontos importantes para poder fazer uma análise justa.
Será que os tamanhos de população são iguais?
De acordo com o Censo de 2020, a população total dos EUA era de aproximadamente 331 milhões de pessoas. Embora o censo não forneça dados específicos por geração, estimativas aproximadas sugerem:
Baby Boomers: Cerca de 73 milhões (22% da população).
Geração X: Aproximadamente 65 milhões (20%).
Millennials: Em torno de 72 milhões (22%).
Geração Z: Cerca de 67 milhões (20%).
Então nessa primeira validação estamos comparando tamanhos de população similares, a análise passou nessa validação.
Será que as gerações tem o mesmo poder aquisitivo?
Se estivéssemos falando e número de pessoas que consomem álcool, realmente observaríamos uma queda relevante, mas a análise é em cima de dinheiro gasto, então o fator renda influencia diretamente na curva:
Renda Média por Geração (do que existe registro/estimativa)
Geração X: Renda média anual de aproximadamente US$ 83.357.
Millennials: Renda média anual em torno de US$ 69.061.
Geração Z: Renda média anual de cerca de US$ 41.636.
Aqui a análise muda um pouco, a geração Z tem metade da renda média anual do que a geração X, o que suaviza um pouco a análise (é natural que eles gastem menos, porque tem menos dinheiro disponível para gastar).
Poderíamos aprofundar mais pontos aqui, mas meu objetivo é lhe conscientizar sobre os perigos escondidos em manchetes com estatísticas. Nesse caso acima, de fato, a geração Z está consumindo menos álcool, mas não tanto menos quanto quiseram fazer parecer.
Vá uma Milha a Mais
Não poderia deixar de recomendar o livro que encontrei no hotel e me trouxe a história detalhada de Walt Disney (e de mais 19 empreendedores). Mesmo sendo um livro de 1997 e só ter versão em Inglês, vale demais a leitura do Forbes Greatest Business Stories of All Time.