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Correndo do lado
sobre criação de filhos e times
Crianças nunca foram muito boas em ouvir os seus pais, mas elas nunca falharam em imitá-los
Dois pequenos riscos.
Isso é tudo o que precisa para mudar completamente a vida de uma pessoa ou de um casal.
9 meses depois, um pequeno ser nasce e passa a ser a maior responsabilidade da sua vida (também um dos seus maiores amores).
Embora a grande mudança venha depois do nascimento, algumas coisas precisam ser feitas antes.
Estudar sobre o que fazer é uma delas, então adicionei aos livros que estou lendo um sobre a criação de filhas.
Afinal, o que um pai precisa saber para ser excelente no seu papel?
O que estou percebendo é que ao estudar sobre o tema, você não aprende apenas a criar uma filha.
Você aprende muito também sobre como liderar um time e desenvolver pessoas (adultas, nesse caso).
Se você fala para uma criança não pegar o seu celular, mas ela te vê o tempo inteiro com ele na mão, é natural que ela vai querer pegá-lo.
Se você fala para o seu time ser pontual e você nunca chega no horário, a probabilidade é que eles também não cheguem.
A primeira (e mais óbvia) lição é que você tem que ser o exemplo de comportamento que você quer ver refletido no seu filho ou no seu time.
Se você quer que eles sejam estudiosos, estude.
Se você quer que eles desenvolvam o hábito da leitura, leia na frente deles e compartilhe o que você está aprendendo.
A segunda lição é que, na maioria das vezes, o seu papel é incentivar e acompanhar, não fazer no lugar.
Pense em uma criança aprendendo a andar de bicicleta.
Seu papel é ajudá-la na direção e lhe dar coragem e a segurança de estar ao lado caso algo dê errado.
Se você nunca tirar as rodinhas ou nunca soltar o banco enquanto ela pedala, ela pode até andar, mas nunca vai aprender de fato.
E para isso você vai precisar de paciência. Não vai ser no seu tempo.
Lembro de uma cena que vi há algum tempo e até então não tinha dado a interpretação que dei depois de ler sobre isso.
Estava em um evento com várias crianças entre seus 1 e 3 anos.
Uma delas estava brincando com aqueles cubos com desenhos onde você precisa encaixar as peças do mesmo formato no espaço que existe no cubo.
O pai dela estava ao lado. A criança pegou o quadrado e tentou colocar no espaço do círculo (não preciso lhe dizer que não encaixou).
No momento em que a criança foi raciocinar sobre e tentar entender, o pai apareceu com o círculo na mão e encaixou no espaço.
Na época achei que ele estava ensinando, hoje vejo que ele estava tirando autonomia.
E aí vêm a parte mais difícil (tanto com filhos quanto com o time).
Saber quando deixar aprender por conta e quando intervir.
Se a criança vai colocar o dedo na tomada, você precisa intervir.
Se o seu time vai entregar um material catastrófico para um cliente, você precisa intervir.
Não sendo o caso, deixe-os errar e aprender com o erro (provavelmente você aprendeu muito mais com seus erros do que com seus acertos, então deixe-os trilhar o mesmo caminho).
Cada vez que você interfere e faz alguma coisa no lugar do seu filho, a mensagem que você está passando é “você é incapaz”.
Faça isso repetidamente e ele vai passar a acreditar nisso.
Com o time é a mesma coisa, cada vez que você puxa para si uma tarefa ao invés de direcionar ou orientar a sua correção/execução, você está passando um sinal de que a pessoa não é boa o suficiente para fazer aquilo.
Pode ser necessário às vezes, mas não pode ser a regra.
A terceira lição é sobre presença.
Seu filho precisa de você, assim como o seu time.
E presença não é necessariamente estar junto grudado do lado, é estar disponível. E quando estiver ao lado, estar 100% no momento.
Imagine-se na seguinte situação.
Você vai ter uma conversa com o seu chefe. Você entra na sala e ele está no celular.
Vocês começam a conversar e você começa a compartilhar seus desafios para crescer, seus objetivos e o que você enxerga que precisa do apoio dele.
Enquanto você fala, você o vê olhando o relógio a cada poucos minutos (não para ver as horas, mas as notificações) e antes dele lhe responder ele checa o celular. Depois que você termina, ele fala algo sobre o que ele está planejando para o final de semana dele.
Ele não estava te ouvindo, só estava cumprindo um protocolo. Como você se sentiria?
Eu diria que ignorado (para dizer o mínimo).
Você acha que o gás que você daria na empresa seria o mesmo? Que o respeito e admiração pelo seu chefe seguiriam inabaláveis?
Provável que não...
Agora pense você chegando em casa de um dia cansativo de trabalho, aqueles em que nada deu certo.
Você abre a porta da casa, se joga no sofá e pega o celular para passar o tempo. Dois minutos depois, sua filha vem correndo em sua direção: “Papai, vem ver o que eu aprendi na escola hoje”.
A inércia vai lhe forçar a responder: “Depois filha, o pai tá cansado”.
NÃO faça isso (estou escrevendo essa para eu já treinar inclusive).
Você vai destruir a admiração da sua filha por você e a vontade dela de estar na sua companhia.
Com a repetição de alguns episódios assim, ela não vai mais te buscar.
Quando ela for mais velha e você quiser que ela te busque para conselhos, ela não tem o menor motivo para fazer isso, afinal, você nunca esteve ali para ela.
A quarta lição é que o que você tolera vira regra.
Sabe aquele pensamento “ah, deixa só dessa vez” para que você não precise ter uma conversa difícil ou não precise “se indispor com a pessoa”?
Pois é...
O que você tolera em casa, vira hábito. O que você tolera na empresa, vira cultura.
Deixe claro suas regras, os limites e os seus motivos. Se está fora do combinado, corrija.
Não delegue essa função, ela é sua como pai e como empreendedor ou líder de time.
Importante comentar que aqui existe uma diferença substancial entre as coisas.
Um time você até pode trocar, um filho não. Então pense muito bem em como você vai tratar essa responsabilidade e com qual escala de prioridade.
Voltando à primeira lição e adaptando a frase de James do início, seus filhos e seu time nunca serão tão bons em ouvi-lo, quanto eles serão em repetir as suas ações.
Seja o exemplo.
Seu momento de refletir
- Onde você está segurando demais o banco da bicicleta e travando o crescimento do seu time (ou dos seus filhos)?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Dados no Cotidiano
Um gestor pode explicar até 70% da variação de engajamento de um time, segundo a Gallup (fonte).
Quando eles falam que “o gestor responde por ~70% da variação do engajamento”, ela está falando de um fenômeno entre times e unidades de negócio dentro da mesma empresa, com as mesmas políticas e benefícios.
Ou seja, o que mais explica por que um time está engajado e o outro não costuma ser a qualidade da gestão direta de cada um deles.
Importante ressaltar que não é “70% do engajamento de cada pessoa vem do gestor”, e sim que 70% da diferença de engajamento entre equipes é atribuível ao gestor.
Esse número é embasado em uma base histórica de análise de 27 milhões de funcionários medidos e mais de 2,5 milhões de equipes ao longo de décadas.
Será que é por isso que, no futebol, quando as coisas estão ruins o primeiro a ser demitido é o técnico?
Vá uma milha a mais
Quer se aprofundar como ser um bom gestor? O Google fez um projeto chamado Project Oxygen onde eles estudaram as características dos melhores gestores.
O resultado desse estudo pode ser encontrado aqui nesse guia.
PS: caso você seja ou está prestes a ser pai de uma menina, deixo uma recomendação do livro que estou lendo sobre criação de filhas (focado em pais): “Strong Fathers, Strong Daughtes” – Meg Meeker (se você quer ver o conteúdo dela antes de comprar, esse podcast sintetiza bem o tema.