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Docet, Sustinet
uma aula entre vinhos
A idade parece ser melhor em quatro coisas: madeira velha para queimar, vinho velho para beber, velhos amigos para confiar e velhos autores para ler.
Faz um ano que eu me casei.
E uma das lembranças mais curiosas daquele dia não ficou só nas fotos, na cerimônia ou na paisagem. Ficou numa conversa sobre vinho.
A gente se casou numa vinícola, e, no dia, fizemos uma pequena degustação dos vinhos da propriedade.
Os dois principais rótulos da casa carregavam ideias que me marcaram muito.
Os nomes eram Docet e Sustinet, nomes vindos do latim que significam, respectivamente, ensine e sustente.
O motivo dos nomes guarda uma lição valiosa sobre os negócios e sobre a vida.
O Docet era para ser o primeiro vinho de guarda daquele local, foi estudado por anos misturando diferentes uvas, diferentes solos até chegar na mistura que eles julgaram ser a ideal para batizar o rótulo.
Ele levou o nome justamente por isso, foi o vinho do aprendizado, de mostrar o processo, o vinho que os ensinou a fazer grandes vinhos.
O vinho ganhou prêmios e trouxe mais notoriedade ao local (agora não só na parte de hotelaria).
E aí entrou a visão do proprietário (sobre vinhos e negócio). Aquele era um vinho com certo grau de instabilidade, todo o ano eles precisam ajustar proporções para manter o sabor e a qualidade.
Eles precisavam de um outro grande vinho, ainda melhor que o primeiro. Se o primeiro os levou para o topo, eles agora precisavam um que os mantivesse lá.
E aí surgiu o Sustinet, o vinho da maturidade.
Um vinho que mostrou que o acerto do primeiro não foi acaso. O que prova que existe método, critério, repertório e tempo investido por trás do resultado.
Um vinho que só seria produzido nas melhores safras e condições e que traria sempre a maior qualidade possível à taça.
E, novamente, depois de anos de desenvolvimento, uma chuva de prêmios.
Acertar um pode ser sorte, acertar o segundo falando exatamente como será o acerto é para poucos.
Na hora, eu já tinha achado uma bela história (eu gosto muito de vinhos e da história das suas criações).
Hoje, além de seguir achando uma bela história, eu a acho uma aula sobre como construir negócios e sobre como se desenvolver como pessoa.
Muita empresa ainda trata resultado como se ele fosse a principal evidência de qualidade. E, na prática, muitas vezes ele é só a evidência mais visível.
Faturamento alto impressiona, uma ação bem pensada é comentada por todo mundo, um bom resultado em uma ação te rende palestras, entrevistas, podcasts...
Mas nada disso, sozinho, responde à pergunta mais importante:
O que nesse resultado veio de domínio real e o que veio de circunstância?
Essa, para mim, é uma das perguntas mais difíceis de responder em negócios.
E a resposta dela você não pode falar, você tem que mostrar.
Quem tem domínio, repete, avisando como vai fazer. Não precisa acertar todas, mas tem que conseguir explicar o que deu certo e o que deu errado a partir dos resultados seguintes.
Porque chegar bem uma vez pode acontecer por vários motivos: uma boa oportunidade, um timing perfeito, um mercado aquecido, uma comunicação que encaixou, um concorrente que errou, uma onda favorável…
Mas repetir exige outros fatores.
No fundo, o grande desafio de uma empresa não é viver um grande momento.
É construir uma trajetória que torne os grandes momentos menos acidentais.
Veja os grandes vinhos. Eles não têm safra todo ano. Você sabe o motivo?
O domínio da técnica e das condições é tão grande, que os envolvidos no processo sabem que o produto final não vai atingir o padrão, então eles não fazem.
Tem empresa que acerta. Tem empresa que aprende a acertar.
E essa diferença muda tudo.
Porque quando o foco fica só no resultado, a tendência é olhar para o fim da linha: faturamento, vendas, crescimento, reconhecimento.
Mas quando o foco vai para o caminho, a conversa muda.
Você começa a olhar para aquilo que realmente sustenta o resultado: a qualidade do produto, a clareza da proposta, a capacidade de execução, a leitura de contexto, o processo comercial, o padrão da operação, a retenção, a forma como as decisões são tomadas.
É menos sexy, mas é mais verdadeiro.
O mercado costuma celebrar a chegada.
Só que a empresa madura respeita o percurso.
Porque é no percurso que se forma repertório.
É no percurso que se corrige o erro.
É no percurso que se cria padrão.
É no percurso que se descobre se aquele resultado foi construído ou apenas encontrado.
Refletindo, a história do vinho me marcou justamente por esse ponto.
Envelhecer bem nunca é obra de um único momento brilhante.
É consequência de origem, cuidado, critério e tempo.
Com empresas não é tão diferente.
O que envelhece bem não é o negócio que vive de um acerto memorável.
É o negócio que cria as condições para seguir entregando bons resultados sem depender sempre de uma exceção.
Como Ryan Holiday diz brilhantemente: “A chave para manter-se no topo é construir coisas que durem, não pular de tendência em tendência”.
E talvez seja por isso que tanta empresa se frustre depois de um grande pico.
Porque confunde a conquista com a capacidade.
Só que, no fim, o que mais importa não é ter alcançado uma linha de chegada bonita uma vez.
É ter construído uma trajetória que te permita cruzá-la outras vezes, e cada vez com mais consciência, menos sorte e mais consistência.
No fim das contas,o resultado importa, claro, mas ele é só a parte visível.
O que define o futuro de uma empresa é o que ela construiu para merecê-lo de novo.
E é nesse cenário que mora nosso desafio, profissional e pessoal.
O que temos que fazer para envelhecer como um bom vinho de guarda e ficar melhor a cada ano que passa?
Seu momento de refletir
- A sua empresa (ou você) hoje está mais preocupada em chamar atenção ou em merecer permanência?
- Qual foi o último grande resultado que você teve, e o que já provou que ele não foi por acaso?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Dados no Cotidiano
Se manter relevante por muito tempo é bem mais raro do que parece. A Innosight (em um estudo de 2021) mostrou que a permanência média das empresas no S&P 500, que era de 30 a 35 anos no fim dos anos 1970, deve ficar entre 15 e 20 anos nesta década.
A consultoria também projeta que cerca de metade do índice será substituída ao longo de 10 anos. Claro que existem milhões de inovações e mudanças no mundo que sustentam isso, mas isso só reforça a tese do quão difícil é se manter no topo.
E para não ficar apenas nas maiores empresas do mundo, se olharmos o cenário de pequenas empresas (não contanto MEIs), só 49,2% dos novos CNPJs sobrevivem cinco anos, 33,8% chegam a dez e apenas 25,6% passam de quinze.
Em outras palavras: crescer já é difícil; envelhecer bem, mais ainda.
Vá uma milha a mais
A minha indicação da semana é o documentário A Year in Burgundy. Ele acompanha sete famílias produtoras ao longo de um ano inteiro e mostra uma lição que vale muito para negócios: reputação não nasce de uma safra especial, nasce da capacidade de reconstruir excelência a cada novo ciclo.