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“Eunicórnios” e o ato de empreender
Querem que eu demita todo meu time
Um negócio que não produz nada além de dinheiro é um negócio pobre.
Não sei o que aconteceu essa semana.
Três conversas diferentes, com pessoas de contextos diferentes, posições diferentes, mercados diferentes.
Uma única visão: eu poderia demitir meu time inteiro se quisesse e tocar a empresa toda com IA.
O conceito de empresas de uma pessoa só tem ganho muita força com o avanço das IAs e com os recentes resultados de captações de investimento.
Tanto que o termo “eunicórnio” tem ganho manchetes recentemente. Empresas que tem apenas o fundador e passaram de 1 bilhão de dólares de valor de mercado.
A primeira vez que fui provocado sobre, confesso que travei.
Aquilo nunca havia me passado pela cabeça.
Não por não saber da possibilidade. Mas por não ver nenhum motivo para fazer isso.
E, mesmo nunca tendo passado pela minha cabeça, me incomodou profundamente.
(o texto que segue reflete unicamente a MINHA visão sobre empreender, cada um é livre para ter seus motivos).
Por qual motivo eu desligaria meu time?
Para mim simplesmente não faz sentido.
Fiquei reflexivo depois daquela primeira conversa.
No dia seguinte falei com uma pessoa do meu time sobre um novo projeto de tecnologia.
Ao final da conversa e depois de mostrar algumas coisas que eu estava testando, ele me falou: “Cara, tu sabe que, se tu faz isso funcionar, tu pode demitir todo mundo e tocar a empresa sozinho, né?”.
“Porr*, novamente isso, e de alguém que tá no meu time?”
Deixei muito claro para ele que isso não podia ser mais o oposto do que penso para a empresa.
Igual, isso me levou ainda mais forte para a reflexão de como eu quero conduzir a Witly (o que não significa que sempre consiga fazer assim).
Um pouco de contexto: a Witly surgiu em 1⁰ de janeiro de 2023 e estamos indo para o nosso 4⁰ ano.
Dobramos de resultado ou mais em todos os anos a partir do primeiro. Nem sempre batemos as metas, é verdade, mas não podemos reclamar dos resultados financeiros.
Agora se eu for refletir sobre os momentos que mais me deixaram felizes nesses pouco mais de 3 anos e meio, os resultados financeiros que atingimos não estão neles.
(não estou dizendo que eles não importam, importam e muito. Só para deixar bem claro.)
Mas ao longo desses anos eu pude ver ou até proporcionar direta ou indiretamente:
- Uma das primeiras pessoas que topou o desafio da Witly, quando eu mal conseguia pagar metade do que ela ganhava, fazer a sua viagem dos sonhos e conhecer o Japão dois anos depois;
- A evolução do nosso primeiro estagiário, que além de ser efetivado e ter virado uma das pessoas mais experientes da empresa, casou e constituiu uma linda família aos 23 anos;
- Trabalhar novamente com um ex-estagiário (e grande amigo) de outra empresa que passei e vê-lo assumir uma das posições mais relevantes dentro da Witly, pedir a namorada em casamento e levá-la para conhecer a Europa (que era um dos sonhos dela) e
- Minha própria família ser formada, minha filha nascer e a empresa (e meu time) proporcionarem que vivêssemos e aproveitássemos esses momentos da forma como queríamos.
Eu poderia citar mais uns 20-30 momentos antes de chegar em algo financeiro. Ver meu time crescer é uma das coisas que mais me motiva a empreender.
Ter reunido um time com diversas pessoas que já tinham trabalhado comigo de alguma forma e confiaram novamente em fazer isso é um baita combustível.
Perdão se pareço piegas, mas na real é isso que eu sinto.
Não é à toa que o último item da nossa lista de 6 norteadores é: “Sucesso é um esporte coletivo”.
De pouco adianta eu atingir os resultados se quem me ajudou a construí-los ficou pelo caminho.
Quando eu lembro de momentos felizes ou marcantes (nem todos são felizes) na empresa, eu sempre penso em pessoas. Nunca em cifras.
Quando eu lembro dos momentos que narrei acima fica muito claro porque não passa pela minha cabeça trocar o meu time por um monte de agentes de IA.
Quero fazer os agentes para o meu time entregar mais, gerar mais resultados para os clientes e serem mais bem remunerados com isso.
Tem uma frase do Richard Branson que gosto muito: “Negócios precisam proporcionar às pessoas vidas enriquecedoras e recompensadoras, ou simplesmente não vale a pena fazê-los.”
Ele não deixou explícito se falava do público comprador ou dos colaboradores da empresa em questão, também pouco importa.
A minha visão é começar por dentro de casa onde eu tenho mais alcance.
Se nem a pessoa que trabalha ao meu lado todos os dias está melhorando de vida e feliz com o que faz, acho bem improvável que minha empresa esteja fazendo isso com o público lá fora.
Seu momento de refletir
- Qual o motivo de você tomar certas decisões no trabalho? Você tem clareza do que te move nesse sentido?
- Que tipo de resultado você quer construir e quem deve participar dele?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Dados no Cotidiano
O trabalho não termina quando o expediente acaba.
Segundo a Gallup, apenas 32% dos trabalhadores brasileiros estão engajados no trabalho.
Esses números ajudam a lembrar uma coisa que, às vezes, os donos de empresa esquecem: ninguém deixa a própria vida na porta do escritório.
Uma liderança ruim não afeta apenas uma entrega. Ela pode afetar a confiança, a saúde, o sono, a relação com a família e até a forma como uma pessoa enxerga o próprio futuro.
O contrário também vale. Uma empresa que oferece espaço para aprender, autonomia, reconhecimento e propósito não melhoram apenas indicadores internos. Ela pode melhorar a vida de quem trabalha nela.
Empreender também é assumir responsabilidade pelas pessoas que decidiram construir alguma coisa ao seu lado.
Vá uma milha a mais
A reflexão de hoje parte muito da forma como eu enxergo uma empresa: não apenas como uma máquina de gerar lucro, mas como algo construído por pessoas e que deveria, também, melhorar a vida dessas pessoas.
Mas sei que essa não é a única forma de enxergar o assunto. Por isso, separei três leituras com visões diferentes sobre o papel de uma empresa.
A primeira, e mais próxima da minha visão, é o livro “Todos são importantes”, de Bob Chapman e Raj Sisodia. Bob Chapman lidera a Barry-Wehmiller e defende que uma empresa deveria tratar seus colaboradores como pessoas, não como ativos ou recursos. O livro mostra como essa visão mudou a forma de liderar e construir o negócio.
A segunda é a visão de Hamdi Ulukaya, fundador da Chobani que tem como tese central que a empresa deve priorizar pessoas e comunidade antes da maximização do lucro. O TED em que ele explica isso é bem interessante e nos faz pensar.
A terceira é o Culture Memo da Netflix. A visão ali é diferente: a Netflix diz explicitamente que não é uma família, mas um time profissional de alta performance. A empresa valoriza autonomia, transparência e boa remuneração, mas também deixa claro que a permanência depende de performance.
Para mim, um conceito que faz muito sentido, dado que se você se importa com pessoas, não deveria deixar que a má performance de poucas arrisque o sucesso de muitas.
A quarta é o ensaio de Milton Friedman de 1970, “The Social Responsibility of Business Is to Increase Its Profits”. Nele, Friedman defende uma visão praticamente oposta à reflexão de hoje: a principal responsabilidade de uma empresa seria gerar lucro aos acionistas, respeitando as regras do jogo.
Quatro leituras, quatro formas diferentes (e até complementares em certo ponto) de responder à mesma pergunta: afinal, para quem uma empresa deveria existir?
A minha resposta, hoje, é bastante clara. Quero construir algo que gere resultado, claro, mas que também ajude a melhorar a vida das pessoas que decidiram construir isso comigo.