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O dia em que quase virei professor universitário
A diferença de objetivo e plano
Há 10 anos, eu me sentava à mesa com o professor que orientou meu TCC pedindo conselhos para entrar no mestrado e começar minha jornada rumo a virar professor.
Muito obrigado, mestre Michel Anzanello por me demover da ideia e me apontar o rumo que me trouxe onde estou hoje.
Sempre tive vontade de ser professor, na verdade, sempre gostei da ideia de compartilhar conhecimento (ensinar e aprender), passar um pouco das vivências e aprender com as vivências dos demais.
No auge dos meus 23 anos, em 2015, eu tinha trilhado 3 anos em uma empresa fantástica chamada Accera. Saí por uma questão de saúde (120kg e uma ameaça forte do meu cardiologista).
Após endereçar esse ponto (um dia conto essa história aqui), comecei a refletir sobre com o que eu gostaria de trabalhar. Queria traçar o meu Norte para construir os próximos passos em direção a ele.
Eu queria montar meu planejamento, tema do nosso percurso de hoje. Mas antes de entrarmos nele, deixe-me contar a história.
Li e refleti bastante, conversei com algumas pessoas, e vi que o que eu queria fazer no futuro estava relacionado com educação. Meu pensamento óbvio na época era que o único caminho era fazer mestrado, depois doutorado e seguir uma carreira acadêmica.
Tracei, então, um “objetivo”: vou virar professor universitário.
Frente a isso, tomei uma decisão que foi fundamental na minha trajetória: me aconselhar com alguém que eu admirava, que me conhecia minimamente e, mais importante, que tinha trilhado o caminho que eu pensava querer trilhar. Mandei um e-mail para o Prof. Michel e marcamos um papo.
A conversa foi totalmente o contrário do que eu imaginava (bastante engraçada olhando em retrospectiva).
Após contar meu objetivo de trabalhar com educação e o plano de virar professor, ele riu e de forma bastante elegante e direta largou um: “Mazzillo, tu vai enlouquecer na academia, isso aqui não é pra ti, tu iria detestar a burocracia e a lentidão com as quais as coisas andam por aqui”.
Um balde de água fria nos meus planos.
Mas aí está a vantagem de buscar conselhos com alguém experiente (fica a dica, por sinal).
Logo após o comentário, ele falou: “isso não quer dizer que teu objetivo não faça total sentido, acho que tu serias muito feliz e bem-sucedido trabalhando com educação”.
Buguei. Como assim o objetivo faz sentido, mas o único plano viável para atingi-lo, não?
Ele seguiu: “Não confunda objetivo com plano, teu objetivo é trabalhar com educação, ser professor universitário não é o único caminho. Hoje, algumas startups estão se aventurando nessa área. Esse tipo de empresa é muito mais a tua cara. Inclusive tem um aluno aqui da Eng. de Produção que acabou de fundar uma empresa para atuar com educação, chama Me Salva!.”
E, como um passe de mágica, meu querido professor foi uma das pessoas que me colocou no caminho que me trouxe até aqui hoje escrevendo essa Newsletter. Além disso, mesmo 3 anos depois de ter orientado meu trabalho de conclusão, me trouxe uma das lições mais relevantes que aprendi com ele: a diferença entre objetivo e plano, e o perigo que é colocar um plano como objetivo.
Desde que entrei no Me Salva!, sempre trabalhei com educação, mesmo nunca tendo sido professor (até agora, pelo menos). Meu objetivo vem sendo cumprido.
Meu professor mostrou um outro caminho para chegar no mesmo Norte que eu queria. Uma aula de planejamento contada ao longo de 10 anos.
Abre parênteses: quero aproveitar o espaço e fazer uma grande saudação aos professores (formais e informais). Que profissão fantástica. Quantas vidas já não foram mudadas por eles. Um obrigado especial aos meus, espero poder retribuir os ensinamentos. Fecha parênteses.
Sempre lembro dessa história quando estou em uma situação em que alguém está colocando um “caminho” como objetivo.
Aliás, eu mesmo fiz isso com essa Newsletter e hoje fui forçado a alterar o caminho. Me propus a escrever sempre depois de correr (dadas as reflexões que a corrida me dava – meu motivo). Me lesionei, estou proibido de correr pelas próximas 3 semanas.
Ao invés de me lamentar, adaptei o caminho sem mexer no objetivo (escrever depois de fazer um esporte que me coloque em estado de reflexão). Aliás, já tinha previsto esse cenário e planejado que, se não pudesse correr, faria uma longa pedalada.
Então, hoje, escrevo esse texto depois de pedalar 30km. Não era meu plano, mas respeitei meu objetivo, então “vambora!”
Tem algumas técnicas que gosto de usar em planejamentos que quero compartilhar com você na expectativa de contribuir um pouco.
A primeira delas é que, dentro de um bom planejamento, o Norte deve ser fixo, os caminhos não. E é nessa premissa que, para mim, vem a maior valia do planejamento: antecipar o que pode dar errado e não traçar o plano perfeito, pois você dificilmente o acertará do início ao fim.
Quem não entende dessa forma, pensa, muitas vezes, que planejar não é tão importante: afinal, o planejamento vai estar errado mesmo...
Só que quando você planeja (direito), entende o que pode te impedir de chegar no objetivo e, com isso, monta planos para “contra-atacar”. Fazer essa projeção de cenários durante o planejamento faz toda a diferença.
Planejar de cabeça fria tende a produzir resultados muito melhores do que quando você reage de cabeça quente.
Pegue um projeto qualquer como exemplo. Vamos supor que ele tenha uma etapa crítica que não pode atrasar.
Qual dos dois caminhos você acha que gera um melhor potencial de resultado:
- Na etapa de planejamento, você se pergunta “o que eu preciso garantir para diminuir a chance de atraso?” além de “existe algo que eu possa acompanhar para saber se vai atrasar antes de acontecer?”, completada por “e se atrasar, o que eu vou fazer?”. Então criar contingências para esses casos e planos para você acionar caso algum problema aconteça.
Ou...
- Enquanto você está executando você percebe: “atrasou” ou “vai atrasar”. Aí você marca uma reunião com os envolvidos para ver o que fazer (no meio do incêndio).
Acho que você concorda que o primeiro caso é bem melhor, não é?
Antecipar possíveis empecilhos no caminho do seu objetivo te deixa muito mais preparado e com uma capacidade de tomada de decisão muito mais racional e planejada. É quase como ter em suas mãos uma anti lei de Murphy.
Com base nesse processo, temos a segunda técnica: a criação de cenários. É bem simples. Você cria cenários e entende o impacto de cada um deles ocorrer e quais são os gatilhos para você entender para qual deles a execução está apontando.
Quando ajudamos nossos clientes a planejarem o ano, a planejarem campanhas e ações específicas, sempre fazemos isso. É um mecanismo de segurança. Trabalhamos sempre com pelo menos 3 cenários (que recomendo muito que você também use):
Cenário negativo:
Caso os possíveis problemas que antecipamos aconteçam (podem ser fatores internos e externos aqui) ou caso nossos indicadores chave piorem a performance por algum fator específico.
Esse cenário vai servir de monitoramento de segurança.
No momento que algo ruim começa a apontar, já sabemos como reagir e, muitas vezes, já temos o plano de contenção montado, inclusive.
E acredito que o grande benefício disso é que muitos problemas nem chegam a acontecer, porque já começamos a execução com cuidado redobrado naqueles pontos. Construir o cenário antecipa a ação.
É quase como sair de casa para percorrer um trecho caminhando com alta probabilidade de chuva. Levar um guarda-chuva te impede de se molhar.
Essa projeção também serve para nos apontar o risco de determinado plano ou objetivo. Caso o cenário negativo aconteça, quais as consequências para o meu negócio?
Se ela apontar para possibilidades mais catastróficas, talvez esse plano não valha tanto a pena.
Agora, imagine não ter isso e se dar conta só no final do problema gerado. Muitas vezes isso pode significar um “game over”.
Cenário base:
É o cenário no qual orientamos a maior parte das ações, principalmente ações de preparação. Se eu quero atingir tal resultado, sei que preciso investir pelo menos X valor.
Para conseguir investir X valor com qualidade, sei que preciso fazer determinadas ações. O desdobramento de atividades e tarefas se baseia nesse cenário aqui.
Ele também vai me mostrar a valia de seguir determinado plano. Vamos supor que você monte o cenário base e ele aponte para um resultado (seja ele qual for) médio.
Será que realmente vale a pena colocar aquele plano em prática? Se tudo seguir como o esperado, tudo que você vai conseguir é um “médio”. Talvez valha repensar o plano.
Cenário positivo (ou potencial):
Se o cenário negativo prevê o risco, o positivo prevê o retorno. Queremos planos que tenham uma assimetria entre cenário positivo e negativo (ou seja, risco bem menor do que possível retorno).
Esse cenário para mim tem um papel fundamental: fazer você não olhar apenas para problemas.
Assim como no cenário negativo, ele também vai ter indicadores de referência, e se você estiver acima de algum deles, significa que existe uma oportunidade.
Já acompanhei muitas campanhas que geraram resultados muito abaixo do que era possível, porque o time só olhava o problema.
“Ahh determinado canal está muito abaixo da meta, vamos focar nele.” Não está errado.
Mas do lado tem um canal voando, muito acima do previsto. Será que não vale focar nele também e acelerar ainda mais? Talvez até compensar o problema do outro?
Tendo esses três cenários bem montados, você aumenta muito a chance de acerto de decisão em meio à execução. E esse é o papel de um bom planejamento: aumentar sua chance de acerto.
Um outro benefício de encarar dessa forma é perceber que o planejamento não pode ser fixo, você deve revisá-lo de tempos em tempos. Afinal, as circunstâncias e o contexto podem mudar.
Imagine a desmotivação de um time que vê que o plano não está dando certo no início do ano e sabe que ele não vai ser revisitado até o final do ano. Serão meses “dando murro em ponta de faca”.
A terceira técnica (revisar o planejamento) se baseia totalmente em perguntas (inclusive conversa muito com o tema da última Newsletter, se você não leu, dê um pulo aqui).
- Meu objetivo segue o mesmo?
- Houve alguma mudança em um cenário externo (positiva ou negativa) que me gera oportunidade ou necessidade de rever o planejamento?
- Algum dos cenários (de riscos ou possibilidades) que antecipei está acontecendo? Estamos conseguindo reagir a ele ou aproveitá-lo?
- Os caminhos que escolhi para atingir o objetivo seguem válidos? Existe alguma outra opção que valha testar?
- Em quais partes estou abaixo/acima do planejado? Quais são os “parafusos” que precisam ser apertados?
Responda essas perguntas (sozinho ou com o time) e raramente você vai ser surpreendido por um resultado negativo (ou positivo). Dica: boas análises de dados contribuem demais para rodar bem esse processo!
A quarta técnica que quero te apresentar aqui é uma que eu aprendi com um grande amigo, o Finn, um dos fundadores da Fluency Academy.
Inclusive foi a técnica que usei para criar a Witly e que uso até hoje para planejar a expansão dela.
Ela se chama técnica dos 10 passos e é recomendada para planejamentos de mais longo prazo ou de criações de grandes projetos.
A técnica consiste em você pensar no seu objetivo final (o passo 10). A partir disso, você parte para qual o primeiro passo que você tem que dar para chegar lá. E, assim, sucessivamente, você vai elencando os passos que te levam no caminho do passo 10.
É tão simples quanto parece e ela tem um papel muito importante: não deixar você sair do foco.
Quando você começar a executar o plano (no meu caso empreender), oportunidades e propostas vão bater à sua porta.
Os 10 passos servem para você filtrá-las. Se te leva no caminho de algum dos passos que você projetou, beleza, ela é válida. Caso contrário, não, obrigado.
Cada “não” que você disser para alguma oportunidade é um “sim” para o seu plano. Fique alerta a isso.
Se começou a achar que o plano não faz mais sentido, revise os passos. Lembre-se: o planejamento precisa ser revisado.
A fim de te mostrar o processo (e caso você esteja com curiosidade), esses foram os 10 passos que escrevi no dia 15/09/2022 e seguem extremamente válidos até hoje.
Meus 10 passos (Exercício Finn)
Ampliar o meu acesso a dados e empresas de um mínimo porte, entendendo a fundo o modelo de negócios e a estratégia de crescimento
Estudar muitos modelos, técnicas e abastecer ao máximo a “caixa de ferramentas”, buscar muitas referências fora do Brasil + Começar a “produzir conteúdo” sobre isso e começar a me tornar uma referência no assunto
Entender as principais dores e gaps de tomada de decisão por falta de dados e informação na prática (encontrar onde mais as empresas dependem de “eu acho”) + Entender o que existe de oportunidade por gap de visão de possibilidades de estratégia, modelos de negócios, etc…
Evoluir uma solução de inteligência para comportar esses pontos e ser muito mais fácil de plugar em diferentes empresas > Trazer mais empresas para dentro do ecossistema e enriquecer ainda mais as bases de dados e de conhecimento
Ampliar minha autoridade (pessoa e empresa) dentro do mercado digital
Definir quais são as empresas que queremos ter ao nosso lado e construir as formas de fazer isso acontecer
Formar um time classe AAA com habilidades e perfis complementares e que possam dar todo o suporte possível para as empresas
Desenvolver uma nova versão de metodologia que já aponta insights e aumenta o tempo de discussão em cima dos problemas e oportunidades e não mais tanto em encontrar problemas e oportunidades
Estar ajudando (como empresa) de forma muito próxima as melhores empresas do mercado a mudar a vida das pessoas (para melhor)
Tornar o conhecimento acessível para o maior número de empresas do bem para ajudar em melhores decisões com base em dados e informações
Perceba como meu Norte segue extremamente válido: sigo trabalhando com educação, só não da forma que imaginei.
Seu momento de reflexão:
- Qual o papel que o planejamento tem nas suas decisões?
- Você tem mais antecipado ou reagido às situações, problemas e oportunidades?
- Qual seu objetivo e quais os 10 passos que você vai dar para chegar lá?
Se quiser trocar uma ideia sobre, só me responder nesse e-mail ou me chamar no @cmazzillojr.
Espero que tenha curtido o percurso e que trocar a corrida pela pedalada tenha mantido a qualidade das reflexões hehe.
Grande Abraço,
Mazzillo
Dados no cotidiano: o impacto da disponibilidade de informação (e das redes sociais) na vida dos jovens.
Essa é uma análise de dados alarmante e impacta diretamente nosso dia-a-dia. Um bom amigo me apresentou esses dados um tempo atrás (até já antigos, embora não imagino que eles tenham melhorado) e achei pertinente usar essa área para trazê-los.
Uma pesquisa da Monitoring the Future com estudantes estado-unidenses do último ano do ensino fundamental até o final do ensino médio apontou que a satisfação consigo mesmo nunca esteve tão baixa, tendo uma correlação direta com a expansão das redes sociais a partir de 2012.
Ainda mais impactante ver como o impacto em meninas foi ainda maior (sempre foi mais baixo que com meninos, mas acelerou com ainda mais força depois do período sinalizado).
O que você acha, mera correlação ou forte causalidade?

Queda acelerada da satisfação consigo mesmo a partir do ano de 2012. (Fonte: Monitoring the Future)
Vá uma milha a mais
Ao falar de planejamento, não posso deixar de lembrar da minha ida a Dubai e do plano de desenvolvimento que eles desenvolveram. É uma AULA de visão e conexão de pontos. Esse foi o melhor panorama que achei sobre o assunto e mostra os passos que foram dados tendo como norte: ser o melhor lugar do mundo para se viver. Vale a milha extra aqui.