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Sobre o tempo
e todos os dias que lhe restam
Vou honrar o Natal no meu coração e tentar manter isso o ano inteiro.
Um amigo uma vez me falou que escrevia a sua Newsletter para ele mesmo.
Um texto que ele achava que estava precisando ler, quase um conselho do seu raciocínio calmo para a sua mente acelerada.
Pensei que deveria ser, ao mesmo tempo, desafiador e um excelente processo pelo qual passar.
Chegou o meu momento de testar esta abordagem.
A verdade é que eu estava com muita dificuldade em pensar um tema para essa Newsletter.
Minha esposa falou que dada a época do ano, era melhor evitar temas técnicos e relacionados a trabalho (isso dificultou ainda mais achar um).
Até que rolando o grupo de whatsapp com meus amigos de faculdade, me deparo com a mensagem de um deles com um pedido para marcarmos o encontro de fim de ano com o seguinte gráfico e a mensagem “lembrem-se disso”.

Eu entrei na faculdade em 2009 e, desde então, todos os anos nos reunimos pelo menos duas vezes no ano.
São mais de 15 anos mantendo a tradição.
Nos últimos 3 anos, porém, as coisas começaram a ficar diferentes (e mais difíceis).
A primeira mudança é que agora os encontros têm quase 10 crianças engatinhando e correndo por todos os lados, o que é incrível.
A segunda, é que mais da metade das pessoas não mora mais na cidade que fizemos faculdade, então o planejamento agora envolve voos e um alinhamento de agendas bem mais complexo.
Eu mesmo me mudei para Brasília e não tenho mais conseguido participar tanto como nos últimos anos.
O Dudu, meu amigo que mandou a mensagem acima, vem tentando nos últimos 4 meses fazer esse encontro acontecer.
Quando eu recebi a mensagem no grupo, já sabendo que eu não poderia ir, não dei tanta atenção.
Foi pensando em escrever esse texto que voltei para ler a mensagem com calma e olhar o gráfico (se você passou rápido por ele, volte e dê uma olhada mais atenta).
Chutar a quina da porta com o mindinho dói muito menos do que olhar esse gráfico e interpretar o que ele significava na mensagem do Dudu.
A primeira reflexão que me despertou foi como a forma que passamos o tempo vai mudando e a gente nem se dá conta.
A segunda foi de uma admiração imensa pelo Dudu estar conseguindo ver isso e insistindo para que todos nós priorizássemos melhor o nosso tempo.
Aquele não era um convite para um churrasco na casa dele, era um convite para lembrarmos que precisamos investir tempo em nossas amizades.
O fato de eu não poder ir dada a logística, me motivou a escrever esse texto sobre tempo.
Eu gosto muito da época de Natal, não só pela magia que a circunda, mas porque todos fazem um esforço extra para verem os amigos e (algumas) pessoas ficam mais gentis.
Um dos efeitos mais importantes dela é poder parar para refletir algumas coisas.
Olhar aquele gráfico, a partir dos meus 34 anos de idade, e ver que o tempo depois dos 34 anos que ainda tenho com meus amigos, pais e familiares me faz pensar não só em como eu aloco o meu tempo, mas principalmente em como eu vivo ele.
Eu tenho o vírus moderno do estar sempre ocupado. Luto contra, mas muitas vezes ele me ganha.
Isso faz com que eu passe menos tempo com quem eu gostaria (alocação), mas, principalmente, que eu não consiga estar 100% presente nessas ocasiões (qualidade do tempo, ou, como eu vivo o tempo).
E sei que isso precisa mudar.
Foi com esse pensamento que acabei a corrida de hoje.
Logo após a corrida passei na portaria para pegar uma encomenda e me deparei com duas vizinhas conversando.
Enquanto pegava o pacote, uma delas falou: “Agora minha mãe está bem melhor, convencemos o médico a dar canabidiol para ela, agora ela não enche mais o nosso saco”.
Aquilo me agrediu de um jeito difícil de descrever (as palavras foram exatamente como está escrito e a forma que foi falado foi de um desdém sem tamanho).
Qual foi o momento em que alguns começaram a tratar as pessoas como post do Instagram? Se não serve, então passa para o próximo...
Será que se ela soubesse que talvez restem apenas uma centena de horas de contato dela com a mãe (ela já tinha certa idade), ela a trataria dessa forma?
Dado que a época é voltada a reflexões, resolvi escrever a mensagem que eu gostaria de receber
“Mazzillo, tu é um cara de dados, analítico, racional....
Olha o gráfico, mas não apenas para os números que estão nele, interpreta o que aquilo significa...faz os cálculos que tu sabe que vão doer.
O trabalho é muito importante sim, mas...
Teus pais já não são novos, muitos dos teus amigos estão longe agora...
Tu vai precisar achar tempo para as pessoas certas.
Não confunde a quantidade do tempo que tu passa com a Manu, porque vocês dois trabalham de casa, com qualidade. Vocês precisam que esse tempo seja bem vivido.
Em Abril, nasce a tua primeira filha, lembra disso, ela vai precisar de vocês dois por inteiro.
Nunca esqueça que o tempo é a moeda mais preciosa que existe. Meu desejo pra ti nesse Natal e final de ano é que em 2026 tu saiba e consiga usar ele da forma correta.
Um grande abraço e Feliz Natal!”
Seu momento de refletir
Seu tempo está sendo usado com as pessoas certas e na prioridade certa?
Grande abraço, um Feliz Natal para você e para a sua família e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Dados no Cotidiano
Com quem você passa o seu tempo.
O estudo que mostrei no texto foi feito pela American Time Use Survey e buscou mostrar como as pessoas usam o seu tempo e, no caso do gráfico que mostrei, com quem elas passam esse tempo.
O gráfico deixa claro que a partir dos 30 e poucos anos, a sua maior companhia será você mesmo.
Agora, existem outras informações escondidas entre as linhas do gráfico. Algumas que podem fazer você repensar algumas coisas:
- Até os 27 anos, aproximadamente, você vai ter vivido mais de 70-80% do tempo que vai passar com os seus pais, parentes e irmão a sua vida inteira
- A partir dos 24 anos, o tempo que você passa ao longo de um ano inteiro (365 dias) com seus amigos é de apenas 11 dias no total (aprox. 270h). Isso equivale a 3% do seu ano.
- Na vida adulta, você passa mais tempo com seus colegas de trabalho do que com seus pais e seus amigos somados. A diferença é que se você sair da empresa que está, seus pais e amigos estarão lá para te ajudar. E dos seus colegas, quem irá migrar de categoria?
Alguns fatos nesses dados são complexos de serem alterados, afinal, não estou sugerindo que você largue o seu emprego para passar mais tempo com seus pais e amigos.
Eu quero que você repense o seu tempo livre (normalmente gasto com besteiras) e a qualidade do tempo que você passa com as pessoas que mais ama.
Vá uma milha a mais
Tire um tempo até a próxima quinta e escreva para alguns amigos que estão distantes e que você sente saudade. Deixe-os saber da importância deles e de que, por mais que a distância esteja maior e o tempo juntos menor, a amizade ainda é forte.