Você não controla o choro

Algumas coisas estão sob nosso controle, outras não.

Epicteto

Eu sempre gostei de ter as coisas sob o meu controle.

Ter na mão sempre o plano ideal e garantir que ele fosse executado da forma que eu tinha pensado.

Minha filha chegou e riu (ou chorou) da minha cara com esse objetivo.

A cada dia que passa, estou precisando aprender a abrir mão do controle da situação.

O fantástico é que com a ajuda de pessoas próximas estou descobrindo algo muito melhor do que o controle, algo mais leve e muito mais eficiente.

Controle é quando você tenta antecipar tudo.

Antes de um bebê nascer, existe uma tentativa natural de colocar ordem no caos: montar quarto, comprar fralda, escolher pediatra, entender rotina, organizar mala, pensar nos horários, estudar o que pode acontecer…

E tudo isso é importante (não pule essa parte).

Mas aí a vida real começa.

O bebê chora em um horário que não estava no aplicativo. Dorme quando você achou que ficaria acordado. Fica acordado quando você achou que dormiria. 

Tem dias em que tudo flui. Tem dias em que nada encaixa. E, aos poucos, você percebe que você não vai conseguir controlar a rotina inteira.

E aí entra um novo conceito, o domínio.

Domínio é quando você entende que, mesmo antecipando muita coisa, a vida ainda vai te atravessar com algo que não estava no plano e você precisa se preparar para o que pode acontecer e “reagir” da melhor forma possível.

A ideia de controlar a nova rotina minuto a minuto estava fadada ao fracasso, hoje é muito fácil ver isso.

O objetivo deveria ter sido desenvolver domínio suficiente para não quebrar quando a rotina mudasse.

E, pensando agora, nos negócios, a gente comete o exato mesmo erro.

Tentamos controlar o mercado, a inflação, o comportamento do consumidor, o custo do tráfego, a concorrência, o algoritmo, a sazonalidade, o humor da audiência.

Só que essas coisas não estão exatamente sob nosso controle.

Você não controla se o mercado vai ficar mais competitivo. Mas pode dominar melhor sua proposta de valor e seus diferenciais.

Você não controla se o Instagram vai mudar o algoritmo. Mas pode seguir sempre testando novas formas criativas de fazer conteúdo.

Você não controla se o custo de mídia vai subir. Mas pode dominar melhor sua taxa de conversão, sua retenção e seu LTV.

Você não controla se a inflação vai apertar o bolso do cliente. Mas pode dominar melhor sua esteira de ofertas, sua precificação e sua comunicação.

Você não controla se um concorrente novo vai entrar no mercado. Mas pode dominar melhor o relacionamento com sua base, a experiência do cliente e a leitura dos seus próprios dados.

O problema é que muita empresa confunde domínio com controle.

Controle é querer que tudo aconteça como foi planejado.

Domínio é ter clareza do que fazer quando não acontece.

E existe um caminho bem tortuoso para evoluir de um para o outro.

E talvez essa seja uma das grandes diferenças entre empresas frágeis e empresas maduras. 

A empresa frágil precisa que o cenário colabore. A empresa madura se prepara para cenários que não colaboram.

Isso não significa abandonar planejamento. Pelo contrário.

Planejamento é importante justamente porque o mundo é incerto. 

O erro está em tratar o plano como promessa, não como hipótese.

O erro está em ter um plano sem contingências, sem cenários, que, muitas vezes, na primeira semana de execução precisa ser jogado fora, porque já não funciona mais.

Um dado simples sobre nascimento mostra bem essa diferença entre controle e domínio.

A data prevista do parto é uma das informações mais acompanhadas durante a gestação. 

Ela ajuda médicos, famílias e pais a se prepararem, mas está longe de ser uma garantia.

Segundo a Cleveland Clinic, a chance de um bebê nascer exatamente na data prevista é de apenas cerca de 5%.

Ou seja, mesmo em um dos eventos mais monitorados da vida, a previsão é muito mais uma referência do que uma certeza.

E talvez esse seja o melhor paralelo possível para gestão de uma empresa ou de um projeto.

A data provável do parto não serve para controlar o nascimento. Serve para organizar o preparo.

Nos negócios, uma meta, uma projeção de receita ou uma previsão de mercado deveriam cumprir o mesmo papel. 

Não são garantias sobre o futuro. 

São instrumentos para preparar melhor as decisões do presente.

Na paternidade, nos negócios e na vida, talvez maturidade seja isso: parar de tentar controlar tudo e começar a construir capacidade de resposta.

Porque o domínio não aparece quando tudo está calmo.

Ele aparece quando o choro começa, a campanha piora, o custo sobe, o mercado muda e você ainda assim consegue pensar com clareza e decidir corretamente.

Seu momento de refletir

Você está tentando controlar coisas que, na prática, nunca estiveram sob seu controle?

Espero que tenha curtido o percurso de hoje.

Grande abraço e até a próxima milha,

César Mazzillo

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Dados no Cotidiano

Em 2009, um estudo publicado no New England Journal of Medicine avaliou o impacto de um checklist cirúrgico simples, com 19 itens, em hospitais de diferentes países.

O resultado foi acima de todas as expectativas.

Após a implementação do checklist, a taxa de complicações em cirurgias caiu de 11% para 7%, e a taxa de mortalidade caiu de 1,5% para 0,8%. 

O ponto aqui não é que o checklist deu à equipe médica controle total sobre a cirurgia.

É impossível controlar 100% das variáveis de um procedimento: a reação do corpo, uma complicação inesperada, uma alteração de pressão, uma infecção, uma falha humana.

Mas o checklist tinha outra função: aumentar o domínio do sistema.

Ele reduziu o esquecimento, melhorou a comunicação, organizou decisões críticas e preparou a equipe para agir melhor quando algo saísse do previsto.

Nos negócios, vale o mesmo racional.

Será que estamos tentando controlar o resultado ou criando checklists, rituais e processos para dominar melhor a execução?

Vá uma milha a mais

Se você quiser se aprofundar nessa ideia de parar de tentar controlar o caos e começar a construir sistemas melhores para lidar com ele, recomendo o livro “Antifrágil”, do Nassim Taleb.