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Você se arrisca por conta própria?
ou sempre depende de alguém
As pessoas dizem querer liberdade. Mas querem junto um manual, um passo a passo e um culpado caso dê errado.
Essa semana eu comecei um projeto que pode virar o maior da história da empresa.
Eu provavelmente ainda vou falar mais dele por aqui e do impacto que ele pode gerar no nosso país.
Mas teve um detalhe nesse projeto que deixou tudo mais especial.
Quem está à frente dele são as mesmas pessoas da primeira empresa em que eu trabalhei há 15 anos.
As pessoas que, lá atrás, me deram a primeira chance de verdade no mercado, uma chance para um estagiário meio maluco de 18 anos.
E, apesar de vir acompanhado de um grande senso de responsabilidade, a sensação é muito boa.
Tenho muita clareza do quanto sou grato a eles por todos os ensinamentos e oportunidades.
Assim como tenho clareza da responsabilidade por perceber que agora… eu não sou mais “o cara novo aprendendo”. Agora eles contam com a minha empresa para cuidar de uma frente inteira do projeto.
Do estagiário que incomodava todo mundo para tentar aprender, agora eu sou uma das pessoas que decide.
E aí eu me peguei pensando: “Qual foi o principal aprendizado que eu carreguei daquele começo?”
Não foi uma ferramenta. Não foi uma metodologia. Não foi nem “trabalhar duro”.
Foi autonomia.
Eu ainda não era formado e já viajava o Brasil sozinho para atender algumas das maiores empresas do país.
E ninguém na empresa me dava as respostas que eu precisava, mas eles sempre me ensinaram os caminhos para chegar nelas por conta própria.
Sempre que alguém mais novo me pergunta algo, eu reforço que aquela foi a minha experiência profissional mais importante.
Sem ela, eu não seria o profissional que sou, a Witly não existiria e eu não estaria escrevendo esse texto que você está lendo.
E a reflexão que isso me gerou é que essa habilidade essencial está cada vez mais escassa.
O paradoxo da nossa época: nunca tivemos tanto acesso… e nunca quisemos tão pouco decidir
Observe os padrões ao seu redor:
Canetas para emagrecer viraram “o caminho” escolhido. E isso não vem acompanhado de mudanças de hábitos (para mais saudáveis) pelo que os estudos mostram. Quanto mais você usa a caneta, mais dependente você fica.
Quando as pessoas vão começar um negócio ou tentar uma nova estratégia de venda, o caminho é copiar de alguma empresa ou guru vendendo a “fórmula” pronta. Nunca os anúncios que vemos e as lógicas foram tão iguais entre si. E quanto mais “resultado” (ou falta de) você tem, mais fórmulas prontas você procura.
As pessoas têm cada vez menos interesse em buscar conhecimento com o objetivo de aprender. Estamos migrando do processo de aprender por leitura + reflexão para o processo de ter respostas para nossas perguntas via inteligência artificial. Afinal, para que eu vou dedicar horas aprendendo algo que em 2 minutos eu consigo a resposta por algum GPT da vida?
Não estou fazendo um julgamento moral (afinal também caio em várias dessas).
É apenas uma constatação de como o “ser humano médio” está tocando as coisas.
Sempre amamos os atalhos. A diferença é que agora os atalhos ficaram “bons demais”.
Só que tem um custo escondido (sempre tem): quanto mais você terceiriza sua tomada de decisão, mais você desaprende a decidir.
E, sem autonomia, a gente até consegue andar, mas sempre vai estar dependendo de alguém nos dizer para onde...
Autonomia no marketing: quem te vende receita quer te manter com fome
Observar o mercado digital virou quase um hobby (além da responsabilidade profissional).
O guru que te vende “a nova onda do momento” sem te explicar o porquê, sem te trazer o conceito e o fundamento… não quer te ensinar, aliás ele precisa que você não aprenda.
Porque se você é dependente, a sua carteira está sempre aberta.
Porque quando você entende o porquê, você começa a fazer perguntas perigosas:
“Isso funciona em que contexto?”
“Quais variáveis importam?”
“Em quais princípios isso está embasado? O quanto que isso impacta no longo prazo?”
E aí você para de comprar promessa. Você passa a construir critério.
A lógica é simples: um profissional autônomo não compra o passo a passo — ele compra clareza e compreensão.
No fim, autonomia em marketing é isso: parar de colecionar táticas e começar a colecionar modelos de pensar e abordar os desafios, construir lógica.
O anúncio do outro pode até te inspirar. Mas a decisão precisa ser sua, afinal a conta, o caixa e a reputação também são.
Autonomia na criação dos filhos: o amor que vira muleta
Você já reparou como dá vontade de evitar qualquer desconforto para quem a gente ama?
O problema é que, quando a gente impede uma criança de errar, tentar, cair e levantar… a gente não está protegendo-a.
A gente está treinando dependência.
Autonomia nasce em pequenas doses de dificuldade: “tenta de novo”, “resolve do teu jeito”, “se der errado, a gente ajusta”.
Eu lembro de não ter entendido quando Bill Gates já falou que os filhos vão herdar menos de 1% do patrimônio.
Hoje, consigo entender o motivo. É justamente para não transformar a fortuna em destino e sim dar espaço para os filhos construírem o próprio caminho e a própria autonomia.
Isso não é sobre dinheiro.
É sobre uma filosofia: se eu faço tudo por você, eu roubo de você a chance de se tornar capaz.
E “ser capaz” é uma das maiores seguranças emocionais que alguém pode ter.
Não é uma chatice minha, é ciência.
Autonomia é uma necessidade psicológica (se quiser entender mais esse conceito, leia o “vá uma milha a mais” de hoje).
E aí, se você olhar friamente para as coisas que precisa fazer no seu dia-a-dia, você se arrisca por conta própria?
Espero que tenha curtido o percurso de hoje.
Grande abraço e até a próxima milha,
César Mazzillo
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Seu momento de refletir
- Em qual área da sua vida você está terceirizando decisões demais?
- Que “fórmulas” você está comprando para evitar pensar?
- Se amanhã a pessoa/ferramenta que você depende sumisse… quanto tempo você duraria?
Dados no Cotidiano
Se autonomia tem a ver com pensar por conta própria, um dos melhores treinos para isso é a leitura.
E os dados que temos aqui deixam muito claro o porquê de muitos problemas em nosso país.
Na Retratos da Leitura no Brasil de 2024, 53% dos brasileiros disseram não ter lido nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa.
E, quando a pesquisa considera apenas livros lidos em sua totalidade, o número de leitores é ainda menor, 27%.
E não, isso não é uma exclusividade das nossas terras tupiniquins:
Japão: 63% das pessoas afirmam não ler nem um livro por mês. Além disso, 69,1% afirmam que sua leitura diminuiu
União Europeia: 47,2% das pessoas não leram um livro completo nos últimos 12 meses
Inglaterra: 40% das pessoas não leram nem ouviram um livro nos últimos 12 meses
A leitura não é sobre o livro específico que você tem no momento.
É sobre manter ativo o músculo de sustentar uma ideia até o fim, de aprofundar um conceito, de refletir...
Sem precisar de estímulo novo a cada 5 segundos.
Vá uma milha a mais
Se você quer entender o motivo da autonomia ser uma necessidade psicológica, você precisa estudar a Teoria da Autodeterminação.
Preparei um resumo do meu estudo sobre o tema (que fiz para escrever a newsletter) aqui.