Qual tem sido a sua frequência cardíaca?

Essa eu corri para poder escrever

Existem duas coisas muito perigosas dentro de uma empresa:

- A primeira é usar um referencial errado;

- A segunda é colocar uma pessoa presunçosa em posição de decisão

Agora, não existe nada mais perigoso em uma empresa do que um presunçoso com poder de decisão e o referencial errado.

Por presunçoso, leia-se alguém que acha que tem um conhecimento muito maior do que verdadeiramente tem e acha que não precisa escutar os outros.

Embora curta, a experiência de misturar corrida e a escrita desta Newsletter tem sido muito bacana. O tema de hoje surgiu na corrida da semana passada… então me permiti inverter o processo e pensar a corrida com base no percurso que quero levar você hoje.

Semana passada, falei sobre fatores externos x fatores internos. Caso não tenha lido, dê um pulo aqui

Nosso trajeto de hoje percorrerá alguns quilômetros falando sobre Referenciais. 

Eu curto muito esse tema, porque acho muito difícil alguém se desenvolver ou alguma empresa crescer sem ter referenciais. Desde que eles sejam os corretos! “Os” no plural mesmo, porque eu enxergo que o correto é ter referenciais diferentes para cada tipo de coisa, e é aí que muita gente erra.

No momento que dei a primeira passada na corrida de hoje, meu objetivo era um apenas: replicar o desempenho da semana passada (aquela corrida virou meu referencial). 

A diferença: eu não estaria me valendo de um fator externo, como na semana passada, apenas a minha capacidade de gerar performance - sim, corri com o tênis normal, o de placa de carbono ficou descansando no armário.

Juro que eu fiz isso pensando em quem leria esse texto, pensando em como mostrar com a minha corrida a diferença de saber ler e usar um fator externo a seu favor e de usar referenciais corretos.

Minhas condições de treino eram idênticas às da semana passada: temperatura, horário, sono, até as dores eram as mesmas (infelizmente hehe).

O que se viu na pista é o que lhe trago abaixo na tabela.

Métrica

Corrida News 2 - Tênis de Placa (meu referencial)

Corrida News 3 - Atual (meu desempenho)

Quilômetros percorridos

7,5km

7,5km

Velocidade Média (minha performance)

12,3km/h

🟢 12,3km/h - aqui, meta dada é meta cumprida.

Frequência Cardíaca Média (meu esforço)

151bpm

🔴 161bpm - wow, parece que eu sofri

Meu sentimento

😎 

☠️ (sofri muito)

Tempo de Recuperação (o custo que me gerou)

23h

🔴 44h

VO2Máx.

54

🔴 51

Perceba que adicionei dois novos indicadores que havia deixado de fora semana passada: o tempo de recuperação e o VO2Máx.. Eles serão meus ajudantes em trazer esse tema para o mundo dos negócios:

  • Tempo de recuperação: essa é uma métrica bem importante que o relógio calcula que me indica quando meu corpo estará recuperado e em condições de treinar novamente. Não respeitar isso é lesão na certa.

  • VO2máx: essa é uma métrica fantástica. Ela mostra a quantidade máxima de oxigênio que o seu corpo consegue utilizar durante exercícios intensos, ou seja, quanto maior o seu VO₂max, melhor o seu corpo consegue usar o oxigênio para gerar energia. Isso te dá mais fôlego e resistência.

Ainda sobre o VO2máx, para entender o impacto dele no exercício, pense que se duas pessoas correm na mesma velocidade, quem tem o maior VO₂máx vai conseguir manter o ritmo com menos esforço.

Imagine que o seu corpo é como um carro. O VO₂max seria o tamanho do motor. Quanto maior o motor (ou seja, quanto mais oxigênio você consegue usar), maior é o seu potencial para correr mais rápido, pedalar mais longe ou se exercitar por mais tempo.

Vamos pensar agora no “de-para” dos indicadores que te apresentei para um contexto de empresa:

  • A velocidade média representa meu faturamento, ou seja, a métrica que indica minha performance teórica em determinada ação. Perceba que assim como o faturamento, velocidade média não me diz absolutamente nada se analisada sozinha.

  • Meu tempo de recuperação representa o meu CAC (Custo de Aquisição de Cliente), ou seja, o quanto que eu tive que entregar de esforço para ter o retorno desejado.

  • Meu VO2Máx representa o Lucro (real e potencial), ou seja, o retorno daquele esforço no curto e médio/longo prazo.  É a métrica que vai indicar sua capacidade de ir mais longe, o seu fôlego.

  • E minha frequência cardíaca média representa o esforço seu e do seu time, o stress gerado para alcançar aquele resultado. Experimente manter muito tempo sua frequência cardíaca muito alta, você vai parar no hospital. Mantenha seu time sob longos períodos de stress e pode dizer adeus a ele.

Ao meu ver, a comparação encaixa perfeitamente (ou não traria aqui para você). Uma corrida mesmo que com velocidade média alta, mas que me gerou alto tempo de recuperação, fez meu VO2max cair e jogou minha frequência lá no céu pode me destruir (lesões graves) com a repetição. E eu consigo acompanhar alguns desses indicadores ao longo da corrida. Sabia que estava esticando demais a corda, mas eu precisava te mostrar o impacto.

A rigorosa mesma coisa vale para uma empresa: não adianta gerar faturamento alto  se, para isso, você precisou bancar um CAC altíssimo e levou seu time ao limite para gerar um lucro baixíssimo. Repita isso mais algumas vezes, e, bom, talvez você não tenha mais uma empresa para chamar de sua.

E é nesse momento que entra o papel fundamental de saber usar o referencial correto! Como lhe falei, eu errei de propósito na corrida, nunca devia ter perseguido o desempenho anterior, eu sabia que não estava em condições para isso quando comecei. Ao longo da corrida, todos indicadores me falavam: “para!”. Fui adiante, me custou dois dias de recuperação.

Sabendo das minhas condições, eu deveria ter usado um referencial que me gerasse pouco esforço, mesmo às custas da velocidade, afinal, era só um treino. Treinando com uma baixa relação esforço x retorno é que conseguimos melhorar nossa condição física, para fazer treinos mais fortes e melhorar a performance.

O paralelo para as empresas é o mesmo. Se a situação está ruim, faça ações que te gerem um menor esforço (financeiro e de time) frente ao resultado, recupere seu caixa, plante sementes para colher lá na frente e aí comece a escalar novamente. É o famoso um passo atrás para dar dois pra frente.

Podemos ver, então, que, para cada tipo de situação ou contexto, eu tenho um referencial mais ou menos correto de se usar. Os que eu gosto de ter pra mim, tanto pessoalmente quanto profissionalmente são os seguintes (pensando que busco seguir crescendo e me desenvolvendo, assim como a minha empresa):

Referencial de base

Aqui é o nosso próprio desempenho recente (em condições semelhantes). Ir pior do que você mesmo (ou sua empresa) estava performando, é sinal claro que tem algo errado. 

Aquela ideia do 1% melhor a cada dia se baseia justamente nesse referencial. Fundamental acompanhá-lo para saber se você está fazendo o mínimo.

Referencial de crescimento/resultado

Aqui é onde deve ficar nossa visão comparativa externa. Precisamos entender como o mercado está performando e, principalmente, como ele está evoluindo. 

Lembro de um ano que uma das empresas que eu acompanhava cresceu 150% em faturamento e o lucro acompanhou. Achávamos que tínhamos feito o melhor ano da história. Até entendermos e analisarmos que o mercado que estávamos cresceu em média 200%. Ficamos abaixo do que a maioria do mercado tinha conseguido. Bom em relação a nós mesmos, fraco em relação aos outros. Tinha algo que precisávamos estar fazendo e não estávamos (dado que a diretriz era crescer acima do mercado).    Esse referencial nos ajudou a ver isso e revisar nossos processos e metas.

Referencial de processo: 

Aqui é onde eu vejo que a grande maioria erra. Erra por usar quem está aqui de referencial de resultado final. Entenda, aqui devem estar os melhores do mercado, os líderes, os que criam as tendências. No que você precisa se inspirar neles? No PROCESSO. O que a maioria olha: o resultado. O problema disso é que a maioria quer ter o resultado, sem respeitar o processo. Essa é a maior fonte de metas sem cabimento, cobranças errôneas de entrega do time ou desmotivação pessoal por não atingir certos patamares.

Sempre quando penso nisso, lembro de quando quebrei meu recorde de velocidade em um tiro de 200m. Consegui percorrer a distância em 32 segundos. Logo depois de ficar muito feliz, pensei: “caramba, essa é quase a velocidade média que o Eliud Kipchogue corre uma maratona inteira e é quase o dobro do tempo do que o recorde do Usain Bolt. 

Muito longe de querer me comparar a essas duas lendas, mas o tamanho da distância entre um profissional e um amador com boas intenções e muito treino é imensa. Se eu tentasse minimamente me comparar no resultado, ia viver frustrado .

Agora, como posso  usá-los para melhorar? Entendo o processo que permitiu que eles tivessem aquele resultado: o treino, a alimentação, a rotina, a estrutura. Claro que tenho zero pretensão de chegar minimamente perto dessas marcas, mas posso aprender muito com o processo.

Vindo para o profissional, isso me recorda uma conversa recente que tive com um cliente (que já virou amigo). Ele me contava sobre um debate interno entre sócios para chegar em um nível de decisão similar a uma das referências de mercado. Os sócios queriam por que queriam ter aquele nível, até que ele usou o referencial da forma correta: “pessoal, o fulano tem um time de tecnologia de mais de 10 pessoas, e está desenvolvendo isso há mais de 2 anos. Nós temos 2 pessoas part-time e começamos  há 3 meses, não tem como comparar…”.

O resultado: concordaram em aumentar o time de tecnologia e investir pesado em capacitar as pessoas da empresa nessa frente. Miraram no processo! Muito provavelmente, com o tempo, vão atingir o resultado que buscam.

Referencial de esforço: 

Gosto muito de falar deste  aqui, porque vejo ele sendo muito pouco usado. Li sobre esse conceito em um livro de John Maxwell sobre liderança. 

O conceito é que alguém que está em posição de liderança (ou influência) tem muito a aprender com seus liderados/influenciados. Principalmente sobre o esforço e técnicas que eles colocam nas atividades.

Esse é o referencial que vai permitir que não nos acomodemos, que descubramos coisas novas e que permita mantermo-nos humildes e em posição de aprendizes.

Eu sempre defendo que um líder deve ser o piso dos seus liderados, não o teto. E, se acredito nisso, certamente tenho muito a aprender com eles. Quem está em início de carreira/empresa e ainda não atingiu o seu nível, provavelmente está  buscando caminhos para fazer isso de forma mais rápida/eficiente. Algo que você descubra ali e aplique na posição que você está pode aumentar muito o seu resultado.

Existem outros além desses 4, mas vejo que eles já dão conta de muito! Dificilmente alguém que saiba usá-los não vai estar muito bem amparado em suas decisões/comparações.

Preparei um resumo rápido para você guardar:

Tipo de Referencial

O que comparar?

Como usar?

Referencial de base
(olhando para dentro)

Desempenho recente (resultado) - buscar estar crescendo em relação a você.

É o que você deve olhar com mais frequência. Começou a cair em relação a você mesmo, pare e revise seus processos e ações.

Referencial de crescimento/resultado (olhando para o mercado)

Resultado (de médio/longo prazo) - buscar estar crescendo acima do que a média do mercado.

Isso vai permitir você avaliar de forma mais clara os seus números e não ficar “alienado” nos seus resultados. Ele te ajuda muito a calibrar os seus próximos passos de médio/longo prazo.

Referencial de processo
(olhando para os melhores)

Processos e estrutura, vulgo, o que essas empresas fizeram que permitiram que elas tivessem esse resultado.

Se você olhar da maneira correta, pode olhar também com certa frequência, buscando melhores práticas, processos e opções de investimento e capacitação de time. A pergunta base deve ser: “quero aquele resultado? Beleza, então tenho que entender o que vai me levar a ele e tentar replicar”.

Referencial de esforço (olhando para quem está “abaixo”)

Esforço e forma de executar.

É o que você deve olhar com mais frequência. Começou a cair em relação a você mesmo, pare e revise seus processos e ações.

Seu momento de refletir:

Estou usando referenciais hoje? Se sim, eles estão na categoria correta?

Tem algum novo referencial que eu possa começar a usar e vai me ajudar a crescer e me desenvolver?

Ah, importante, como tá a sua frequência cardíaca ?

Fique à vontade de compartilhar suas reflexões comigo. Vou curtir muito saber.

Espero que tenha curtido o percurso de hoje e que ele possa servir de guia para suas próximas decisões.

Grande abraço,

Mazzillo

Dados no nosso cotidiano:

3.2 bilhões de euros. Isso é o quanto os brasileiros gastam mensalmente em apostas online segundo o Jornal El País. Fazendo as conversões e divisões, isso equivale a dizer que cada brasileiro (considerando os bebês), em média, gasta 90 reais por mês com apostas online.

A rede de supermercados Assaí, inclusive, ponderou isso como fato relevante para explicar a queda de ticket médio de cerca de 14% nas compras realizadas em suas lojas, ou seja, o brasileiro deixa de comer, mas não deixa de jogar. Isso não tem como acabar bem.

Quer ir uma milha a mais?

Dado que estamos falando de referenciais, não poderia deixar de recomendar uma que tenho quando o assunto é Liderança (e até citei no texto): John C. Maxwell. São muitos livros que ele já escreveu (meus favoritos são “O Livro de Ouro da Liderança” e “Dia-a-dia com Maxwell”). Se você está ou um dia pretende estar em posição de liderar alguém, vale muito conhecer o autor.